25.9.07

RECADO


Os dias, os canteiros,
deram agora para morrer como nos museus
em crepúsculos de convalescença e verniz
a ferrugem substituída ao pólen vivo.
São frutas de parafina
pintadas de amarelo e afinadas
na perspectiva de febre que mente a morte.
Ao responsável por isso,
quem quer que seja,
mando dizer que tenho um sexo
e um nome que é mais que um púcaro de fogo:
meu corpo multiplicado em fachos.
Às mortes que me preparam e me servem
na bandeja
sobrevivo,
que a minha eu mesmo a faço, sobre a carne da perna,
certo,
como abro as páginas de um livro
- e obrigo o tempo a ser verdade

(abril, 1955)

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira, nasceu no dia 10 de Setembro de 1930, na cidade de São Luiz, capital do Maranhão. Ingressa na Escola Técnia de São Luís, em 1943. Aos vinte anos, já premiado num concurso de poesia promovido pelo Jornal de Letras (Brasil), e tendo publicado o seu primeiro livro – Um Pouco acima do chão (1949) – muda-se para o Rio de Janeiro. Trabalha como revisor em várias revistas e jornais. Em 1959 escreve o o ensaio Teoria do não-objecto, demarcando-se do Movimento Concretista. Inflectindo para uma nova atitude literária de engajamento político e social, Gullar publica várias obras sobre temas políticos prementes no seu tempo. 1970 marca a sua entrada na clandestinidade. Exila-se na Rússia, no Chile, Peru, Argentina. Regressa ao Brasil em 1977, retomando aos poucos as actividades de crítico, poeta e jornalista. »

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