27.9.07

HOJE NÃO HÁ POEMA

Hoje não há poema, meu senhor.
Michael Hamburger
Hoje não há poema, hoje há apenas uma, duas, três, quatro frases de Pasolini, em conversa, com Jean Duflot, a ecoarem na frustração: «Não vejo o que possa haver de mal em amar o povo, em verificar concretamente as suas ideias. Para mim, repito, as revoluções são feitas pelos povos actualmente mais próximos da terra: a revolução de Outubro é uma revolução de camponeses, as de Cuba e da Argélia também. Não estou a inventar nada. Não tenho culpa, mas é um facto que o enquadramento das cidades pelas aldeias determina os grandes problemas políticos do mundo». E por que me lembro eu destas palavras? Porque logo pela matina, em conversa com a minha sogra, escutei-lhe este desabafo: «a vida está difícil, as pessoas têm que submeter-se…» A vida está difícil. Ouço isto como se estivesse a ouvir uma tese filosófica proferida por uma eminência parda das letras, da cultura, das artes, da ciência política, do pensamento. Mas aquela conclusão a que tão rapidamente chegou a minha sogra, após a constatação das dificuldades da vida, aquela conclusão de que «as pessoas têm que submeter-se», ah!, essa conclusão é que me faz pensar, essa conclusão deixa-me de rastos. Penso e nada me ocorre. Não consigo pensar aquela conclusão, só consigo pensar que hoje não haverá poema. Hoje é o dia das pessoas se submeterem, não há poema. Hoje é dia de concordar, de aceitar, de engolir, de curvar, não é dia de poema. Está tudo explicado. A poesia morreu, está explicado porquê. Não há poema porque a vida está difícil. Quem quer poemas quando a vida está difícil? O que há é um povo a sair de casa na direcção do trabalho, há um povo a sair de casa na direcção do emprego, na direcção da procura, o que há é um povo a desenrascar-se da vida difícil, do desespero, da angústia, há um povo a queixar-se da vida, a dizer à vida que não é vida, a matar-se, a subjugar-se, a rastejar, um povo de gargantas subjugadas, presas à necessidade de respirar. Mas julgam vocês que se a vida estivesse realmente difícil o povo se submetia? Não me lixem. Está difícil para quem? A vida nunca esteve tão boa, essa é que é essa. Boa como um pântano espesso onde, muito lentamente, os corpos se vão enterrando. Mas boa. Só quando a lama estiver pelo queixo é que a vida estará difícil. Até lá, como no filme do Kassovitz, seremos um corpo em queda dizendo «até aqui tudo bem, até aqui tudo bem». Vocês sabem a conclusão. Se não souberem, lembrem-se dos corpos que se atiraram dos andares cimeiros das Torres Gémeas. Não estou a inventar nada. As revoluções não são feitas pelos povos, pelo menos em Portugal nunca forma feitas pelos povos. As revoluções são feitas pela miséria, pela desgraça, pelo estatelamento iminente. As revoluções são feitas pela fome. Haja febra para o bandulho, e não haverá poema. O povo, essa massa acrítica entre a qual nos encontramos, uns mais que outros como peixes fora de água, não pensa senão em função do que o bandulho exige. E enquanto der para desenrascar, quer lá o povo saber de direitos, de leis, de ser ludibriado. Dêem-lhe espectáculo, dêem-lhe a selecção dos pobres mas honestos homens do râguebi. Esses derrotados, espelho de uma nação há séculos fechada sobre os seus orgulhos mesquinhos, são o espelho que o povo anseia. E basta. Dêem-lhe os derrotados. Dêem-lhe orgulhos, orgulhos mesquinhos, inúteis, mas potencialmente enganosos, falaciosos, anestesiantes. Não lhe dêem poemas, os poemas não anestesiam. E a vida está difícil.

1 Comments:

At 3:44 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"E por que me lembro eu destas palavras? Porque logo pela matina, em conversa com a minha sogra, escutei-lhe este desabafo: «a vida está difícil, as pessoas têm que submeter-se…» A vida está difícil. Ouço isto como se estivesse a ouvir uma tese filosófica proferida por uma eminência parda das letras, da cultura, das artes, da ciência política, do pensamento. Mas aquela conclusão a que tão rapidamente chegou a minha sogra, após a constatação das dificuldades da vida, aquela conclusão de que «as pessoas têm que submeter-se», ah!, essa conclusão é que me faz pensar, essa conclusão deixa-me de rastos. Penso e nada me ocorre. Não consigo pensar aquela conclusão, só consigo pensar que hoje não haverá poema. Hoje é o dia das pessoas se submeterem, não há poema. Hoje é dia de concordar, de aceitar, de engolir, de curvar, não é dia de poema. Está tudo explicado. A poesia morreu, está explicado porquê. Não há poema porque a vida está difícil. Quem quer poemas quando a vida está difícil? O que há é um povo a sair de casa na direcção do trabalho, há um povo a sair de casa na direcção do emprego, na direcção da procura, o que há é um povo a desenrascar-se da vida difícil, do desespero, da angústia, há um povo a queixar-se da vida, a dizer à vida que não é vida, a matar-se, a subjugar-se, a rastejar, um povo de gargantas subjugadas, presas à necessidade de respirar. Mas julgam vocês que se a vida estivesse realmente difícil o povo se submetia? Não me lixem. Está difícil para quem? A vida nunca esteve tão boa, essa é que é essa. Boa como um pântano espesso onde, muito lentamente, os corpos se vão enterrando. Mas boa. Só quando a lama estiver pelo queixo é que a vida estará difícil"

sabe bem e mal ler isto. no dia em que me despedi do meu emprego/trabalho, do meu patrão. sem nada na manga, sem para onde ir.

até ver andarei no aturado labor das esplanadas. olhando o outono. grave. gravíssimo. los lunes al sol...

manso

 

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