26.9.07

INVOCAÇÃO


Poetas que me rodeais, à noite, quando cismo
Na infinda solidão das minhas horas mortas;
Figuras de almas, absortas
Na treva, em que me abismo,
E perdidas a olhar num misterioso encanto;
Eu compreendo bem o vosso canto,
Que em meus ouvidos íntimos ressoa
E que povoa
De estrelas o infinito do meu ser!

Poetas que me rodeais quando medito
Na saudade que faz os mortos reviver,
Entendo, sim, o vosso estranho grito,
O além da vossa mágoa;
E, logo em mim, soluçam, vagamente,
Elegias que eu rezo enternecidamente,
Como as fontes murmuram versos de água…

Camões! Teu alto sonho em mim delira
E a tua voz extinta é novo canto alado,
Que fere a minha lira;
Na minha dor,
Sinto bramir o vento e o mar, salgado
Das lágrimas que chora o Adamastor!

Serra minha da Arrábida, saudosa,
De que Frei Agostinho se encantou,
E, nessa doce paz religiosa,
Servo de Deus, um dia se exilou;
Alta serra nocturna e fragarosa,
Que ao Tejo e ao Sado as águas apartou;
Oiço o teu canto humilde e pobrezinho,
Ó meu irmão em Deus, Frei Agostinho!

Ajoelho perante a tua imagem,
Santo Antero da minha devoção;
Os «Sonetos» são cruzes na paisagem,
- Calvário desta humana condição!

António Nobre, ó meu irmão, doente
Daquela dor que os ímpios não conhecem,
Pousas as mãos esguias, que arrefecem
Na minha fronte ardente!

Verlaine, Baudelaire: - a dor amarga;
Shelley: - o vento etéreo;
Keats: - a eterna dor;
E Dante e o seu Inferno: - visão larga
Do Mundo além da Morte e além do Amor;
E tu, doce Vergílio,
A primeira figura no Mistério
Da minha soledade!

Vindes todos quebrar o meu exílio,
Trazer à minha vida a vossa eternidade!

E eu falo só, na noite iluminada
Pelo vosso clarão;
E sinto em mim, de novo, a luz sagrada,
O milagre da minha inspiração!

Henrique Belford Corrêa da Silva
Imagem respigada aqui.

Anrique Paço D’Arcos, nome literário de Henrique Belford Corrêa da Silva, conde de Paço d'Arcos, nasceu em Lisboa em 1906. Estudou em Macau e, já em Lisboa, frequentou o curso de Ciências Económicas e Financeiras. Estreou-se em 1923, com Versos sem Nome. Faleceu em Lisboa, no ano de 1993.

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