31.10.07

INOCENTES


Os inocentes, com seus olhos varandim, recuam sempre nas paisagens, metem os olhos para dentro e sublinham os horizontes com baba de camelo. Metem as mãos nos bolsos quando são chamados a dar contas, olham muito para o lado do torcicolo, mas sabem dar à língua com a destreza das vítimas: nada connosco, nada connosco, esperando talvez que os outros mergulhem também no pântano onde se arrastam e nadam, em largas braçadas, na direcção das margens que melhorem acudirem a seus anseios. Vê-se no bojo dos inocentes a candura das espécies, absurdas, ridículas, injustificáveis à luz de candeeiros de vidro, a petróleo, como aqueles que havia na casa da avó. Comovem a medicina quando passam pela doença, com o corpo coberto de competências, embrulhados em currículos invejáveis, amigos de meio mundo, meio mundo da amizade. E prosseguem caminho, sempre com as mãos nos bolsos, não vá uma cigana abelhuda ler-lhes a sina, desmascarando-lhes a face esponjosa, o papel cuidado, as carreiras especializadas na simpatia. Como Russell, pensam que as virtudes importantes são a bondade e a inteligência. Daí à prática de ambas, um nó na garganta, vários argumentos passajados, uma colecção imensa de velharias que era suposto transaccionar no mercado das terças-feiras. Conheço bem os inocentes, sentados em cubículos de vidro, olhando por cima das paredes os feitos dos outros, com a inveja crescendo-lhes por baixo dos olhos em fundos traços negros, sempre muito húmidos, depois sorridentes, prontos como lacaios para o aperto de mão, o abraço, desejo de melhoras rápidas, sucesso e saúde. São amigos e mandam beijos a toda a hora, quando pecam vêem no pecado uma utilidade que na virtude não vislumbram. Mas inocentes, como um amor que se confunde com cárie nos dentes, eles combinam sempre frente ao embaraço a simpatia das agendas. A cruz dos inocentes é a sombra que os prossegue para todo o lado, é o rastro de memórias que carregam com os pés sobre a terra que pisam, calcam e lavram, é o não terem como dizer sem desplante aos filhos o quão inocentes são, que bom seria se continuassem sendo, até que a morte os separe. A cruz dos inocentes é a benevolência. Admiti-la seria rasurar a inocência, não são tão ignorantes que o permitam sem mais nem quê. Inocentes, pronunciam. Mas as pernas tremem, Raskólnikov suspira e sopra-lhes ao ouvido, as mãos suam, as palpitações sobem às pálpebras, dilatam as retinas, encolhem as orelhas. Inocentes, sobre a terra, só os vermes, que à partida são presumivelmente culpados.

2 Comments:

At 6:48 da tarde, Blogger sOl said...

Inocentes sós os que ainda n deixaram de o ser pq n têm capacidade nem maturidade para isso...
E aqueles que são tão desprezados pq supostamente n têm uma consciência e existem apenas p nos servir e nos entreter...

De resto,para os outros,essa palavra n faz sentido...




sOl*

 
At 12:32 da tarde, Blogger etanol said...

Esta vaca ao espelho é tão inocente que não se reconhece!
:)
Maria João

 

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