27.11.07

VIOLÊNCIA DOMESTICADA

Não há nada mais estúpido do que ligar a televisão quando se procura repousar. A televisão é inimiga do repouso. Há muito que se apelida a televisão de «janela aberta para o mundo», o que, dito de outra forma, é uma janela aberta para quem mais nos agride. Como sou muito estúpido, ainda não passei à prática o que já estou farto de saber em teoria. Ontem, enquanto procurava repousar duma manhã e início de tarde cansativos (isto de estar desempregado é uma canseira que nem imaginam), liguei a televisão. Na RTP1, o João Baião falava com o contador de histórias José Hermano Saraiva. Mudei para a SIC, espero que não seja necessário explicar porquê. Na SIC, um tipo careca e a Rita Ferro Rodrigues, essa grande referência da blogosfera portuguesa, falavam sobre não sei o quê com não sei quem. Como só tenho quatro canais, mudei para a TVI. Impõe-se um esclarecimento: não passei pela 2 porque, como já disse, queria apenas repousar, verbo que a 2 desconhece tal é o trabalho a que nos obriga cada minuto da sua programação. Na TVI decorria um programa com este magnífico nome: As Tardes da Júlia. Que fiquei eu a saber acerca das tardes da Júlia? Nada que mereça ser partilhado. Mas houve algo nas tardes da Júlia que me prendeu por instantes ao ecrã da televisão. Algumas senhoras contavam com uma naturalidade extraordinária as suas experiências de casamento mal sucedidas. A ideia, segundo percebi, era enaltecer a coragem das mulheres que decidiram divorciar-se. Como acredito ser muito mais indispensável a coragem na decisão do casamento, julgo sempre o divórcio, apenas e tão só, um acto de bom senso. Como bom senso teria sido evitar toda a trapalhada que um divórcio implica, lá está, se se tivesse tido a inteligência de evitar o casamento. Mas o que mais me chamou a atenção naqueles exemplos foi a vitimização da mulher, a tipificação do género feminino como o género frágil, vítima desses terríveis machos que usam e abusam da ingenuidade feminina. Esta redução da mulher ao papel de vítima transforma-a, quase sempre, numa criancinha adulta, uma espécie de inocente, frágil e ingénua criatura que, nas mandíbulas poderosas e venenosas dos homens, não pode esperar outro fim que não seja o da traição, da manipulação, da violência. É verdade que a violência doméstica em Portugal é uma realidade absolutamente vergonhosa, é verdade que, numa sociedade tipicamente machista como a nossa, são as mulheres quem mais sofre com esta realidade (a PSP registou em 2006 um total de 8.828 ocorrências com indicação de 7.412 vitimas do sexo feminino, 1.195 do sexo masculino, 311 menores de 16 anos e 496 idosos). Mas seria bom não esquecer que a barbárie não escolhe género, bestas de calças e de saias é o que para aí não falta. No dia em que nos chega a notícia de mais um homem assassinado pela sua mulher, ao que tudo indica devido a questões relacionadas com partilhas, esta realidade da violência doméstica deve fazer-nos pensar nas chamadas variantes ou, se quiserem, para ser manso, nas excepções à regra. Ainda há não muito tempo, uma senhora da chamada high society também passou a ver a aurora aos quadradinhos, por ter mandado matar o marido. Mais uma vez questões relacionadas com dinheiro. Estou em crer que há para aí muitos homens vítimas de mulheres que não procuram outra coisa nas suas relações senão sujeitos que lhes sustentem os vícios, as festas e o chá das cinco com as amigas, casacos de pele, malas e sapatos de marca a condizer. Há para aí muito homem, escravo do trabalho, cuja vida é um inferno diário, porque é uma vida cingida a um único elemento: ganhar dinheiro para não ter que ouvir a mulher chamar-lhe falhado ou inútil. Estas questões não podem ser esquecidas, sobretudo numa sociedade tipicamente machista, como já afirmei, onde ainda hoje há muito a ideia de que cabe ao homem trabalhar para que a mulher possa ficar em casa a dar ordens à empregada. Não é preciso conhecer nenhum estabelecimento prisional feminino para constatar que a violência doméstica tem mais rostos do que aqueles geralmente propagados. E enquanto continuarmos a olhar a mulher como a tal criatura ingénua, inocente e frágil, é a própria mulher quem mais perde com isso.

5 Comments:

At 11:52 da manhã, Anonymous Vida Involuntária said...

Henrique,
Não quero entrar em polémicas, porque "para este peditório já dei" muitas vezes. Mas, entendo que se deve discernir entre "violência doméstica" e "crimes de sangue". Não tenha a menor dúvida que das centenas de milhar de portuguesas que são sovadas, e maltratadas ao longo de décadas, só uma pequena percentagem chega à Polícia. E que das "assassinas" muitas sofreram esse duro e longo calvário.

Ainda há alguns meses, uma senhora da média burguesia, que conheço, me telefonou em depressão profunda porque o marido, diante do filho, nora e netos pequenos, a tentou agredir enquanto vociferava: "És uma puta e uma puta velha". Só porque se atreveu a discordar de uma determinada orientação educacional das crianças. Aconselhei-a a reflectir sobre "violência doméstica".
E por aqui me fico.

 
At 12:07 da tarde, Blogger hmbf said...

Inês,

É claro que crimes de sangue são diferentes de violência doméstica, embora a violência doméstica descambe, por vezes, em crimes de sangue. Daí que só me tenha referido a crimes cometidos no contexto da violência doméstica.

Não tenho dúvida alguma quanto ao facto das percentagens de casos detectados serem um eufemismo do que se passa na realidade, o mesmo valendo para os casos de violência doméstica exercida contra homens, crianças e velhos. A minha questão aqui é apenas a de lembrar que, muitas vezes, a imagem que se faz passar da mulher como um ser frágil, débil e inocente, não é a mais correcta.

Óbvio também que muitos crimes cometidos no contexto doméstico são respostas angustiadas e desesperadas das mulheres à agressão permanente de que são alvo. Mas também não descuro os imensos casos de homens que são psicologicamente violentados a tempo inteiro por mulheres que outra coisa não querem deles senão um sustento para os seus vícios. Numa sociedade onde, infelizmente, a mulher ainda se faz depender em demasia do homem, esses casos são muito mais frequentes do que as pessoas imaginam.

Como tenho juristas na família, ouço frequentemente histórias de casamentos desfeitos porque o marido não trazia para casa o dinheiro que era suposto trazer. Ou seja, ainda há muitas mulheres que se casam, única e exclusivamente, pela boa vida que pensam ir ter depois do casamento. O homem que trabalhe.

Quanto a esse exemplo que dá, sei deles, em registo de proximidade, às dezenas. Mas não é por esses casos existirem que nos devemos esquecer dos outros. Olhe, ainda ontem falei com uma colega minha cujo pai se tentou suicidar porque a mulher o abandonou. Razão: falta de dinheiro, frustração. Sabemos muito bem desta triste relação entre crise financeira e crise conjugal. E enquanto forem as mulheres, esperemos que cada vez menos, a deixarem-se reduzir a este papel de criatura frágil e dependente, pior para todos.

 
At 9:02 da tarde, Blogger etanol said...

E as mulheres que sustentam vicios de homens que não querem trabalhar? Também existem essa minoria, e as mulheres de facto não são assim tão frageis como parecem, resistem a muito. As bestas podem ter todo o tipo de caras, sexo e idade. Assim como violencia gera violencia (psicologica ou fisica)as vitimas também se podem tornar carrascos e vice-versa, infelizmente.

 
At 10:48 da tarde, Blogger hmbf said...

Claro que esses casos também existem. O meu post é apenas uma reacção a uma imagem da mulher, passada no programa referido, que julgo não ser correcta e prejudicar apenas as mulheres.

 
At 11:04 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Bem, só uma última achega.
Pelo menos aqui a Norte, essa tipologia de mulher sustentada pelo marido ou companheiro, está em vias de extinção. Tenho tido várias empregadas de serviço doméstico que acumulam diversas casas e serviços, para contribuirem para a prestação do próprio apartamento e do automóvel.Claro, que tiraram cartas de condução, mas já se esqueceram de quase tudo, porque nem têm tempo para pegar no carro, - ou é feudo do companheiro - ou nem há dinheiro para a gasolina.

O cerne desta questão é:
1 - a dependência económica
2 - a dependência afectiva

Se da primeira as mulheres se têm libertado, mercê da evolução social e dos direitos de cidadania; da segunda,não é tão fácil, mercê de arcaicos paradigmas civilizacionais e religiosos, que precisam de séculos para se modificarem.
Com isto, não quero significar que todas as mulheres são santas e mártires. Falo de "géneros" e tipologias; de há muito e conheço a problemática, desde a Simone de Beauvoir, direi mesmo da "Liga das Mulheres Republicanas", da Ana de Castro Osório -1.ª editora de "Clepsydra" de Pessanha ou sei lá, da 1.ª votante feminina, em Portugal, uma médica, de quem li a história.Tenho estado atenta a todos os progressos jurídicos no "Direito de Família", que era há algumas décadas, antes do 25, altamente lesivo da Condição Feminina.

Sem dúvida: uma mulher sem independência económica está em situação de FRAGILIDADE E DEBILIDADE no seu agregado familiar.Que redobra, se tiver filhos menores.Pois questões mais complexas se põem.

Perguntaram um dia a Sophia de Mello Breyner, se estava sempre de acordo com o seu marido.

Não, disse ela. Porque isso significava que um de nós não pensava.

 

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