12.12.07

A NATUREZA DO MOSQUITO


Hoje em dia não há vagar para nada, a gente até a descansar tem pressa, a gente senta-se a teorizar sobre os mosquitos e logo se levanta à procura do Raid. Hoje em dia é assim, anda tudo num afã com as contas por pagar. Mal se mete um pé fora de casa, logo a perna toda treme. Não é de frio, não é de frio. As temperaturas estão altas. A perna treme de outros gelos, daqueles gelos que, sem darmos por isso, nos corroem os ossos. Tem dias que sinto o corpo todo minado por esse gelo. Depois a minha filha fala-me em tendas com pistas de patinagem no gelo e eu tremo mais ainda. Digo-lhe que passo a vida a patinar no gelo, mas ela não entende. É tão pequenina. Ainda não pode entender estas coisas. O que ela já entende é a numeração de um a dez. Já sabe que dez é muito mais que três, que três é menos que seis, que seis é mais que dois mas menos que nove. Já sabe isso tudo. E sabe-o em inglês. Hoje em dia os pequenos mundos são sábios desde tenra idade. Julga-se que os frutos darão caroços no futuro, transmitem-se multiplicações e divisões e subtracções e somas com grande empenho. É desses caroços que precisamos para curar o gelo que nos corrói os ossos. Não sei o que dirão, no futuro, da arte contemporânea. Não sei se olharão para ela como uma coisa clássica. É bem provável que no futuro a arte contemporânea se torne clássica e a arte clássica seja uma coisa rupestre e a coisa rupestre se apague definitivamente da memória colectiva. Ainda há não muito tempo vi alguém chamar de paleolítica à arte rupestre. Não me admira que, no futuro, alguém chame de rupestre à arte clássica. Mas, por estes dias, as minhas preocupações são outras. Sento-me a pensar nestes mosquitos e logo me levanto à procura do Raid. Gosto do meu tempo, sou um homem do meu tempo. Aprecio a vida, assim levada no frémito das compras, dos negócios, do mercado, das ofertas, das promoções. Adoro promoções. As promoções são a prova de que vivemos num mundo justo, embora a justiça do mundo seja pouco mais que acessória ao pé da justeza das promoções. O que é a justiça no mundo? Alguma vez existiu justiça no mundo? Podemos falar de actos justos, podemos denunciar actos injustos, mas o mundo sempre foi uma balança desequilibrada de ossos queimados pelo gelo. Não havendo nada a fazer contra isso, o melhor será mesmo esquecermos isso. Partamos então para o mundo como quem não tem ossos. É claro que nos arriscamos, aqui e acolá, a sofrer fracturas. Ninguém que jogue a bola está livre de partir um osso. No entanto, tenhamos nós sorte, arriscamo-nos a ir para debaixo da terra com o esqueleto em magnífico estado de conservação. Seremos mortos muito bem conservados, esqueletos esbeltos, magníficas radiografias, seremos a obra de arte predilecta dos vermes, o sol nascente da morte, a sétima maravilha do mundo subterrâneo. Tenho a certeza que o mundo subterrâneo ficará muito feliz com a nossa conservação, provavelmente fará de nós uma obra de arte. Não sei como funcionam essas coisas no mundo subterrâneo. Talvez não seja muito diferente do que se passa à superfície. Mas suponho não estar errada a ideia de que, no mundo subterrâneo, a arte tem uma vida que não pode almejar à superfície da terra. À superfície da terra é tudo tão efémero, excepto, talvez, este tempo de sempre, esta azáfama discursiva de sempre, esta mania de, sem tempo, passarmos o tempo à procura do Raid enquanto o mosquito morde mais uma vez. É essa a natureza do mosquito. Talvez a nossa se restrinja ao acto de procurar.

2 Comments:

At 6:53 da tarde, Blogger Nuno Dempster said...

Já há muito tempo que não vinha aqui. Tenho andado por longe, também à caça de mosquitos. Adquiriste substância, neste longo intervalo. A densidade que o subterrâneo dá aos que vêem, e que se faz também daqueles que não vêem um boi à frente do nariz e que talvez um dia vivam à custa do que outros viram por se terem farto de matar mosquitos. Um abraço para ti.

 
At 11:11 da manhã, Blogger hmbf said...

Volta sempre.

 

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