14.12.07

A PALAVRA

Max Ernst
Não nego que já me passou pela cabeça comprar uma camisa de alcatrão, muitas vezes penso que não vale a pena insistir nos tecidos. O melhor seria mesmo dar ao corpo uma laje e ficar para sempre fechado no silêncio audível do esquecimento. Não tenho cá sonhos eternos, nem parapeitos para horizontes distantes. O meu mundo é o das raparigas decapitadas, dos desejos cumpridos à míngua, das unhas desunhadas, dos pés frios e sarnentos, o meu mundo não tem asas, rasteja, e se, por mero acaso, ganha asas, logo é para ser depenado. Passo a vida a ver alguidares de água fervida nas coisas. Vêm-me dos tempos em que minha mãe se sentava a depenar galinhas. Depois sonho com insectos a picarem-me a cabeça, sugando-me qualquer coisa do corpo ao mesmo tempo que nele encontram asilo para uma espécie de vermes alojados na espinal-medula. É por isso que tremo muito por estas alturas, não é do tempo nem das primaveras adiadas, não é da neve nem do vento, é dos vermes que trago alojados na espinal-medula. A última vez que falei nisto ao médico ele mandou-me para casa descansar, disse-me que era provável estar a minha alma debaixo de um chuveiro de loucura. Eu virei-me para ele e disse-lhe que não acreditava em nada do que me estava a dizer. A loucura é que está debaixo do chuveiro da minha alma, pois a minha alma é este corpo da loucura. E eu penso, por vezes, que os homens nascem todos loucos. Que a vida é, precisamente, essa experiência de arrumar a loucura dentro do corpo, de encontrar para ela recantos consoladores, de a empregar à saída dos nervos. Só que há quem não consiga encontrar esses recantos. Depois faz desenhos, pinta, escreve poemas, não diz coisa com coisa, mata-se. Na pior das hipóteses, as pessoas que não encontram recantos consoladores para a loucura, matam-se. Há muitas pessoas assim. Por vezes essa morte começa num sonho. Por exemplo, quando sonham que trazem vermes alojados na espinal-medula, quando sonham que esses vermes são sentimentos que debilitam a espinal, quando sonham que esses sentimentos debilitadores serão, mais tarde ou mais cedo, a causa de inúmeros problemas, tais como o amor. Ainda sou dos que acreditam no amor, mesmo que acredite no amor como um problema. Amar é um problema danado. Não há médico que cure o verme do amor. É que o amor dissipa o corpo integralmente, chegando-lhe mesmo à alma, esse lado do corpo que a gente jamais conhecerá, porque há sempre um lado do corpo que permanece incognoscível, é o lado mais de fora. A razão de não chegarmos a ele deve-se ao facto de passarmos a vida a olhar para dentro. Depois esquecemo-nos de que fora é que está a alma do corpo, ela está tão fora que nos passa despercebida. Excepto quando somos violados pelo sistema, pelas necessidades, pela frustração que advém das necessidades não satisfeitas. Quando assim é, a gente dá pela alma. Nessas alturas olhamos para o céu, chegamos mesmo a desenhar um parapeito para horizontes distantes, e oramos. Como quem desenha, pinta, escreve um poema ou toca piano. No fundo, no fundo, apenas como quem dança.

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