19.3.08

MARGINAIS #3

Agradeço muito ao João Camilo a continuidade que deu ao diálogo. Li com atenção os seus dois posts sobre esta matéria e revejo-me em muito do que afirma, discordando de alguns aspectos. Talvez a minha posição seja, então, a que o João Camilo já professou. Mas vamos por partes, para tentar simplificar o problema. Continuo a discordar da ideia segundo a qual «se a literatura fosse por natureza marginal não havia tantos escritores». Creio que não existem assim tantos escritores a escreverem literatura, pelo menos segundo os parâmetros que me servem de critério para destrinçar o que é literatura do que o não seja. Existe, sem dúvida, muita gente a escrever. Existe também, sem dúvida, muita gente que escreve e publica livros. Mas não me aprece que sejam assim tantos os que escrevem literatura. Já referi anteriormente que para mim a literatura é uma arte transgressora e, por isso mesmo, transformadora de um dos bens mais preciosos da humanidade: a linguagem. Quando falo de literatura falo de algo que está ao alcance de muito poucos, ou seja, a capacidade de transformar a linguagem, de acrescentar algo à língua em que se escreve, de romper com as normas, os cânones, as regras que permitem, num determinado tempo histórico, rotular com a maior das facilidades o trabalho deste ou daquele autor. Peço desculpa pela repetição, justificada apenas por julgar ser importante a clarificação deste ponto. Que para outros a literatura seja algo diferente, não só não me choca nada como até me agrada e me parece bastante saudável. No entanto, para mim, a literatura é precisamente a arte de escrever reinventando a língua. Caso contrário, ela reduz-se à mera prática da escrita. Arte nobre, por certo, mas não necessariamente literatura. Concordo que exista uma literatura marginalizada, o que não a torna, por si, literatura. Parto de premissas diferentes. Estar convicto de que a literatura é intrinsecamente marginal, no sentido de ser algo à margem das tais normas, cânones, regras, rótulos, etc (de notar que nada disto tem que ver com o facto de ser boa ou má, pois literatura haverá que, intrinsecamente marginal, seja insuportavelmente má), implica estar ciente de que entre as margens corre um tempo sempre em devir. O que faz da margem uma margem não é apenas a existência de um meio, mas antes a resistência aos paradigmas desse meio, a provocação de crises e de conflitos dentro desses mesmos paradigmas, intentando mesmo destruí-los, ou, se quisermos, desconstruí-los na base do único paradigma que considero verdadeiramente literário: o da capacidade de acrescentar algo à língua em que se escreve. Tal tarefa não estará certamente ao alcance de todos os que escrevem. Não confundir, porém, marginalizar um autor, um livro, uma obra, com ignorá-la. Para marginalizar é preciso ter um conhecimento da obra que nos permite colocá-la à margem de alguma coisa, provavelmente o meio. Sem esse conhecimento, limitamo-nos a ignorar a obra. Não creio que isso possa ser confundido com marginalizar. Os gostos e os códigos de cada um, escrevam histórias da literatura ou não, serão apenas critérios para seleccionar, de entre o que existe, aquilo que se quer conhecer e o que não nos importa ignorar, aquilo que se julga ser merecedor de memória e o que não faz mal deixar cair na penumbra. Concordo em absoluto com o João Camilo quando afirma ser esse processo natural: «a sociedade necessita de tranquilizar a dissidência esforçando-se por criar consensos. As divergências assustam-na: há risco de algazarra e confusão. Faz parte da vida em sociedade quererem aqueles que nela têm poder e direito à fala hierarquizar tudo o que nela acontece e estabelecer como "bom" o que corresponde aos valores e ambições dessa sociedade». Sucede apenas que eu não sinto que tenha de estar de acordo com esta natureza das coisas, por isso prefiro considerar literatura o que, num determinado tempo histórico, afronta este estado de coisas, confundindo, divergindo, criando algazarra. Talvez isso explique que eu nunca tenha recorrido a uma história da literatura para seleccionar as minhas leituras (sou militantemente anárquico nestas matérias), talvez por isso eu não seja grande leitor dos suplementos literários que propagam modas e tendências, talvez por isso eu prefira confiar, enquanto leitor, nas minhas mãos, na minha vontade e na minha cabeça (mais na de alguns criteriosos amigos) como único modo de chegar aos livros que pretendo ler, talvez por isso eu não possa falar sobre a grande maioria das obras que deliciam os críticos na actualidade. Não me imagino mais ou menos à margem por isso, mas acredito ingenuamente que tanto no amor como na morte não pode haver obrigação. Assim seja no que mais me aproxima do amor e da morte: a literatura.

5 Comments:

At 3:15 da tarde, Blogger ana salomé said...

...
abençoada iluminação de espírito :D

 
At 3:31 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

O João Camilo além de excelente poeta (conheço-o desde "O T de Tu", faz parte da nossa diáspora mais brilhante de professores de Literatura. O seu post, além de profunda e conhecedora análise, é de uma liberdade bem informada e lúcida, sem limites, não deixando de ser coloquial. Aliás, como compete a gente deste quilate.
Entendo-o lindamente. Até fui aluna do Arnaldo Saraiva a "Literaturas Orais e Marginais"...

 
At 11:38 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Não há literatura marginal, ou melhor: na literatura só uma das duas partes pode ou n ser marginal: os próprios leitores.


H. Leme

 
At 1:24 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Mas a questão é mesmo essa.
Marginal ou marginalizada?.Há teses de doutoramento e muita coisa publicada sobre isso. O que é a para/literatura, a Literatura de Cordel, de que fasla o João Camilo, etc. Há inúmeras questões que se põem. O texto de um psicótico pode ser Literatura. E o Romanceiro? E os Contos Tradicionais? A grande contradição é que a literatura não-canónica (tipo pimba,seringador, anedotas, cor-de-rosa, etc) é a que tem mais leitores. Logo a "marginalizada" no cânone é a rainha da "produção".

E depois ainda há aquela velha questão de "O Cânone Ocidental" do Harold Bloom.

Quanto à faculdade de transformar a Língua, as línguas estão sempre em transformação. Desde que sejam utilizadas por "massas falantes" de milhões de ulilizadores. Só não se transformam, actualizando-se, as línguas mortas (que já não têm falantes, são apenas línguas de Cultura) como o Latim e o Grego Clássico.

Outra questão ainda, mas algo diferente, é a questão dos vanguardismos e rupturas estéricas ou dos ditos "malditos", que tem outras implicações.

 
At 1:34 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

"rupturas estéticas" - correcção.

 

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