18.3.08

TEORIA LÍRICA (5. política)

1. Não vos peço o voto. Sou um político novo.

2. Vês esta cadeira vazia? É tua, senta-te à mesa. Vieste de longe e enquanto caminhavas eu próprio trouxe a tua cadeira preferida (dá música, é uma grande novidade; gostaríamos que a estimasses pois trata-se de uma cadeira realmente especial)

3. Não acredites ser possível estimar toda a gente; olhaste na ponta dos meus sapatos a flecha de aço. Repara, são redondos precisamente para que não te magoe. Mas diz-me: a tua avó continua a ter frieiras na infância?

4. Ah que inveja tenho da tua liberdade. Continuas a aliar como ninguém uma forte sensibilidade à loucura de uma criança que ultrapassou as asas. Falta-te um lado prático, como sabes, e para remediá-lo dispões-te a experimentar mesmo aquilo que te faz sofrer. Senta-te.

5. Também eu fui tinhoso: conheci os poetas e vi-os em seus círculos redondos a amamentar as crias. Procuravam os inferiores para se sentirem justos ao proporcionarem-lhes o que não merecem; publicavam-se livros muito pobres, não era, e o editor sorria, porque lhe é feito de fracos o céu.

6. Qualquer coisa é verdade se lhe diminuíres suficientemente o universo.

7. E tenho gente ligada umbilicalmente a mim. Tu vais ser lido no futuro, mas a tua biografia pertence-me (mais do que a ti). Detesta-me por isto se quiseres, mas senta-te à mesa. Trouxe esta cadeira para ti, é uma cadeira especial. Dá música; e tu sabes como eu me sinto bem com todas as tuas qualidades.

8. E no alto do mar rodou três vezes, rodou três vezes a chiar e disse:

- Senta-te.



Rui Costa

3 Comments:

At 11:03 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Rodou três vezes nos calcanhares?

 
At 12:11 da tarde, Blogger MJLF said...

Olha o Costa e a teoria lírica, já não o via algum tempo, pois é, senta-te!
:)
Maria João

 
At 3:06 da tarde, Blogger margarete said...

saudades!

 

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