23.4.08

ARRASTÃO

Pode ser que, por mero acaso, as tuas horas sejam as minhas. Se assim for, deixa-me dizer-te que por estas horas o sol cai sobre as águas da lagoa. Parece uma luz que vem lá do fundo. A meia dúzia de pescadores no cais lançam o isco julgando, talvez, ser aquela luz o reflexo escamado dum cardume. Mais ao fundo, no alto e tonitruante mar, os arrastões barram o caminho dos peixes, os quais, colhidos pela rede, encontram a morte muito antes do isco. Alguns poucos, mais afoitos, chegam à rocha e escapam ao anzol. Porém, não lhes resta qualquer memória. Querem contar aos demais como foi a aventura e não se lembram. Só a mulher, algo embrutecida pela solidão, pode recordar aventuras antigas. Com os netos todos engrenados, nunca pensou apanhar na vida a seca dum deserto imenso. Para ela a vida parou, nada mais resta. Dantes, ainda se sentava à beira do cais a fazer umas rendas. Agora, limita-se a olhar os peixes mudos que se aventuram até à rocha. Diz que tem angústias, que por vezes responde a anúncios só para falar com alguém. Respondem-lhe que procuram gente entre os 30 e os 35, mas ela, na casa dos 60, ainda com mãos para as estufas, não pode senão ligar para calar um pouco as angústias. É possível que também no seu caso tenha havido um arrastão, lá no alto e tonitruante mar, a barrar-lhe o caminho. O nome desse arrastão é saber que não possuo.

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