15.5.08

O edita por escrito

1.
Se este mundo não é uma mentira completa é por ainda existirem locais de embarque e desembarque, como os cais portuários, as estações de autocarro, os terminais ferroviários e os aeroportos nacionais e internacionais.
Estes espaços expressam como nenhum outro o modo de habitar humanamente o mundo: uns partem, alguns chegam, enquanto outros se mantêm na sala de espera e aguardam pela sua hora enquanto vai sendo a hora dos seus...
Entre as chegadas e as partidas, escapam-se lágrimas de suprema alegria ou de saudade antecipada, esboçam-se sorrisos da orelha daquele que chega até à orelha daquele que o vê chegar, elevam-se pescoços para ver até mais não aquele que acaba de descobrir que consegue caminhar às arrecuas enquanto acena um adeus ou um até..., etc etc, sem esquecer que, entre o sem-fim de sensações e sentimentos, existe ainda o solitário em direcção a um destino onde igualmente não terá ninguém à sua espera.
Por aqui as únicas pessoas plásticas são os que se encontram empregados. Daí que estejam devidamente fardados, como os actores quando sobem ao palco. No fundo, valha inocência, trata-se de gente tão honesta como os passageiros quando levam à cena o seu papel no respectivo teatro do expediente.

*

Quando vivia no Barreiro, a minha casa ficava a poucos passos do terminal de chegada e de partida dos principais transportes públicos. No Outono, e também no Inverno, costumava apanhar o autocarro e fazer a carreira completa só pelo prazer de circular pela cidade. Mas quando chegava a Primavera, e sobretudo no Verão, preferia sentar-me numa esplanada com vista privilegiada para o atraque e desatraque dos barcos e arregalar-me com o tráfego dos passageiros.
Hoje trabalho no aeroporto del Prat del Llobregat, o principal aeroporto que serve a Catalunha. Diante de mim, durante oito horas a fio, tenho uma moldura humana que nunca é a mesma e me alivia a cabeça como uma boa-nova.
Entre os vários locais de embarque e desembarque, tenho especial carinho pelos cais marítimos ou fluviais e um fascínio enorme por ver os barcos perderem-se no horizonte de bruma ou luz. Igualmente me encantam os terminais ferroviários, alguns pelo recorte romântico e todos por nos conduzirem através de caminhos de ferro que invocam todos os tempos e todas as eras. Os aeroportos, por seu lado, valem pela amostra inigualável de rostos humanos e que se renova cada dia com uma vitalidade infindável. Já as estações de autocarros, ainda que também tenham o seu vaivém colorido e polifónico das cargas e descargas, pecam por ser demasiado mundanas para manterem o mistério de que se alimenta o meu misantropo e místico gosto.

Vítor Vicente

3 Comments:

At 1:38 da tarde, Blogger Nelson said...

gostei muito deste texto, ainda ontem escrevi isto,

Respiro, como um sopro de Primavera,
como um bafo baço de Outono desfolhado,
construo-me nas estações, todas e qualquer uma.
Apanho combóios imaginários e saio mundo fora,
vejo girassóis, rochas, rios e espaço muito espaço,
todo um espaço onde as coisas se fazem e se perdem.
E o tempo, não o dos ponteiros mas aquele que é meu,
aquele que aprendo nas cores do céu,
aquele que desagua na minha pele e salta dos olhos.


No Inverno sou um pai todo poderoso,
incendeio chamas cor de ferrugem para aquecer,
aparto milagres em lençóis de linho e faço a cama.
No Verão sou uma mãe cheia de razão,
sou a água fresca onde mergulhas sem medo,
sou a areia fina onde deixas a tua marca.
Em todas as estações, todas, sou o mar,
de onde parto, de onde chego, onde me fico.
Profundo em mim numa espera sem chegada.

Só,
quero estar só,
quero ser só,
verdadeiramente só.
Sozinho,
mergulhado neste mar onde vagueio ao sabor do vento.
Só assim chego a ti.

:)

 
At 3:05 da tarde, Blogger etanol said...

Lá Vitor, é muito bom ver-te aqui.
:)
Maria João

 
At 9:40 da tarde, Blogger Vitor_Vicente said...

Olá Maria João,

É igualmente muito bom compartir contigo o Insónia, como também Punta Humbria e, em breve, a Casa do Brasil.

 

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