14.5.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #45

TCHEKA PAIXÃO




30 MINUTOS
Espera tóxica às dez horas... os passeios
da cidade cheiram mal. Uma beata continua
ajudando a aquecer um frio na solidão.
Não havia ruas tranquilas dentro
das nossas mágoas

33
o pássaro dança frente à luz apagada
do holofote pregado no jacarandá.
Estamos em Julho de dois mil e cinco
e não se pára de lavar cérebros
um pouco por todo o lado

39
todos os largos são como este: uma árvore
de romances. Alguns podres, caem no chão
e de imediato são pontapeados contra
o esquecimento. Neste tempo de rasteiras
e sem urgência de passos, cambaleio
pelo teu corpo que é para mim
uma cidade. Ou será da cidade?

41
serenamente olho os escarros na calçada
enquanto não chegas, ausentando-me
desta terra que foi um país triste
dos portugueses que amei, talvez
porque morri outro dia numa letra
barata dum fado ou pela malvada
noite em que me roubaram
o mapa solar dos beijos

46
sem trabalho e dinheiro quase tudo
se troca, quase tudo se vende. Por vezes
ia das Galinheiras a pé negociar a chouriça
preta por um prato de sopa a dez euros.
Sentava-se num banco de jardim, abria
o fecho éclair do blusão e mostrava
a mercadoria. Já não segura na trincha
há muito por doença, só na que entesa
dentro das bocas. Trocos e trocados juntos
dão uma nota para enganar a fome

47
arrepios de vingança rasgavam-lhe
o corpo indo pelos passeios atirando
migalhas de dor aos pássaros por chegar.
A memória pode ser mais perigosa
que um armamento químico

48 E TREZE SEGUNDOS
na sombra dos passos trazia areia preta
e a esperança de enriquecer a ir-se
numa aragem morna deslizando
junto ao chão, queimando sonhos
de imigrante que se vão nas folhas
rasgadas do calendário, pelos meses
a passarem na pirisca, entre o voo
duma toutinegra e silhuetas de coisas
mundanas de importância menor

51
só se lembrava de mim quando precisava
de sacar algo que para si era muito
e para mim é sempre um nada.

À noite tenho saudades do seu crioulo
namoradeiro tropeçando no meu ouvido.
Sodades, saudades do meu coração
a curar-se aos poucos num fogo
de S. Filipe, onde o meu pouco pão
partilhado chegava com um passaporte
para sonhos sem fronteiras.

Esperei, procurei e ainda te procuro.
Não morras sem te dizer uma riqueza:

a falta que me fazes.


Jorge Aguiar Oliveira

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