16.6.08

Pessoa. 10


Um dos azares do Fernando era não lhe caber o Tédio no rendeiro. O outro era o tarolo não lhe ter comprimento para, guinando por debaixo dos ovos, ocupar o lugar onde o Tédio não cabia. Criou por isso Fernando o irmãozinho Caeiro que, havendo adquirido os hábitos do rebanho, passou a recepcionar o Tédio em forma de Doce Vazio de Existir, que era o nome que o Fernando reservava para o tarolo nos dias em que a Sorte (também conhecida como “aquela putéfia da Rua dos Douradores”) se mostrava renitente à intromissão da Poética nas traseiras das cabritas. Dizia o Caeiro que havia Metafísica bastante em postar-se de rendeiro para o ar, a apanhar com sol biológico, e o Fernando a explicar-lhe que se aquilo não era uma flor é porque era outra coisa, e que essa coisa é que era linda. Linda, linda, mas no dia seguinte quem não se assenta sou eu, retrucava Caeiro, enquanto as cabritas se espavoriam, caindo directamente da Rua dos Douradores no Sereno Mar do Alheamento, onde aparcara Reis, com o travasso escondido atrás da caneta, das várias canetas com que tentava acertar nas prebendas que lhe caíam do Céu do Esquecimento, que era o outro nome que se dava nesse tempo às cricas assassinas. A culpa foi de Bernardo Soares. Era a sua vez de chamar o moço dos fretes. Por isso todos o encalcetámos perdidamente, com Florbela Espanca assistindo, cheia de sonetos atravancados onde o Tédio nunca coube.


Alcides

2 Comments:

At 1:04 da tarde, Anonymous Rui Lage said...

Não há volta a dar-lhe: este é o post do ano, no mínimo. Cá para mim o Alcides é mais um heterónimo ainda desconhecido que os bichinhos da prata da CFP desencantaram do baú do Pessoa, digeriram e cuspiram cá para fora.

 
At 1:46 da manhã, Anonymous Anónimo said...

põe-te a jeito, frade

Alcides

 

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