12.6.08

teoria lírica (8. CIÊNCIA)


1. Eu gosto muito da sensibilidade e choro às vezes mas não me apercebo porque estou sempre a pensar noutras coisas.

2. Gosto dos bichanos, dos gatinhos que gatinham para mim, auscultando-me o olhar posto neles. Mas não acho bem que se afoguem os gatinhos que não olham para mim, e era mesmo capaz de cortar as unhas se lhes (gatinhos) sentisse algum fulgor nisso.

3. Dar milho aos pombos é um acto de sublimação sexual. Claro que isto ainda não foi estudado, porque os cientistas têm dificuldade em conceber a oferta de milho como um órgão sexual.

4. Os cientistas não dão milho aos telescópios, mas deixam-se ser observados por eles. O órgão sexual dos cientistas é ser observado pelos telescópios, às duas da manhã, com um botão a menos na bata da imaginação, café, acreditar, ser observado por uma bactéria, ser encontrado por uma bactéria às duas da manhã, orvalho, glicerina, mon amour.

5. O José Luís Peixoto é uma pombinha com dentes, e tem muito medo de magoar o milho.

6. O Henrique Fialho é um frasquinho de mercurocromo. Serve para joelhos esmurrados de coices nas sevícias da bola__derivado a que o toque do vermelho consagra a amizade (ausente) por quem cai a fazer aquilo que gosta.

7. Dia pleno de sol no esventrar da humanidade. Corpos riem-se, flores calcadas. Uma mulher mostra-me o cabelo. Eu digo-lhe: quero passar a mão no teu cabelo. Ela encosta-se a mim. O sol pesa nas minhas mãos sobre o seu corpo. O sol pesa, o mundo desaparece.


Rui Costa

16 Comments:

At 9:10 da tarde, Blogger MC said...

que ternura :)

 
At 10:09 da tarde, Blogger Jorge Melícias said...

Tenho para mim que os individuos que tecem comentários jocosos à sensibilidade do José Luís (seja para com o milho seja para com qualquer outro tipo de gramíneas)não têm boa índole.

 
At 11:36 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Jorge Melícias: É a sua dele literatura que me sugere aquela frase. Quando muito, a sua sensibilidade literariamente expressa.

Agora imagina uma resposta infra-estrutural: tenho para mim que os indivíduos que avaliam a índole das pessoas com base em frases, mais ou menos ficcionais, a propósito de obras, conteúdos, sensibilidades, não têm boa índole. Imagina, e tenta perceber por que é que eu não te respondo assim.

Rui Costa

 
At 12:09 da manhã, Blogger Jorge Melícias said...

Rui Costa: procurar (e, pelos vistos, achar) outra coisa que não a ironia neste meu comentário é quase tão fantástico como procurar e achar os já por si citados borrachos com dentes.

 
At 8:31 da manhã, Anonymous Fernando Dinis said...

Estes textos do Rui têm o estranho poder de me fazer sorrir.
E de escrever.
Mas é como quando se ouve mp3. Voltamos logo a colocar a música do início.

 
At 10:44 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Jorge Melícias: Ok, melhor assim.

fernando: obr, até já.

Rui Costa

 
At 10:57 da manhã, Blogger hmbf said...

Já agora, trago para aqui uma excelente recensão crítica que o Melícias fez à última recolha poética de JLP: «Para bem da literatura era bom que alguém desse uma caneca ao homem. E fica aqui um apelo a quem de direito para que apetreche convenientemente os bombeiros lá do sítio. Quanto aos ursos de peluche creio que o ministro da administração interna pouco possa fazer» (http://bibliotecariodebabel.com/geral/cinco-poemas-de-jose-luis-peixoto/#comments). Parabéns, Melícias!

 
At 11:41 da manhã, Blogger Jorge Melícias said...

Rui Costa: não é melhor nem é pior, é como é.
Estranho é que tenha sido necessário chamar-lhe a atenção para o verdadeiro tom do comentário.

Henrique Fialho: Por falar em comentários parvos, esse comentário deixado no Bibliotecário de Babel tem, sob o ponto de vista crítico, a relevância que tem, nenhuma. E, no entanto, ele incarna exactamente aquilo que penso da poesia do José Luís Peixoto. Não se trata aqui de gostar mais, gostar menos ou não gostar de todo, de me sentir mais ou menos próximo das linguagens ou estéticas em causa. Com a maioria dos poetas que vou lendo é a isso que as coisas, em última análise, se resumem. Com a poesia do José Luís Peixoto as coisas assumem contornos diferentes. Pesando bem as palavras trata-se aqui de respeito e, muito honestamente, não sinto pela poesia do JLP qualquer tipo de respeito.

 
At 1:54 da tarde, Anonymous adelaide crespo said...

E porquê essa falta de respeito?

 
At 3:02 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Jorge Melícias:

O teu tom predominante (pelo menos aqui no Insónia) é bastante sisudo, por vezes rezingão, e pareces (demasiado) dogmático nalgumas ideias (estou a pensar sobretudo nas tuas opiniões sobre poesia). Destas impressões que tenho resulta, provavelmente, o eu não ter estado inclinado para uma interpretação do comentário que permitisse a ironia. E também não sei até que ponto é que distingues a realidade da ficção, a literatura da pessoa que a faz e, no caso de não seres muito capaz de fazer estas distinções, que relação é que terias com esse escritor.

Rui Costa

 
At 3:30 da tarde, Blogger Jorge Melícias said...

Adelaide Crespo: a minha opinião reporta-se à poesia do José Luís peixoto. Não conheço suficientemente bem a prosa: li o "Morreste-me" (o original desse livro foi apresentado a uma editora a quem no momento estava ligado) e não gostei.
A minha leitura é tão rebatível e desmontável como outra qualquer mas acredito que a literatura e a poesia, neste caso, não são o depósito de toda a canga sentimental. Essa função julgo pertencer aos diários pessoais, a maior parte das vezes, avisadamente, secretos. Confundir literatura com "desabafo", poesia com apontamento circunstancial, pretendendo, no fundo, fazer passar "gato por lebre" não me parece muito honesto.
Em relação ao livro em causa penso que os poemas ilustram, na perfeição, o que tento explicar.

Rui Costa: tem dias, o fundamentalismo de que tantas vezes sou, justamente, acusado.
Quanto ao problema de confundir a realidade com a ficção estou melhor: o dumyrox e o cipralex fazem milagres.

 
At 12:08 da tarde, Blogger hmbf said...

Para confrontação, sugiro esta visita: http://casoual.wordpress.com/2008/06/13/exercitationes-iv/ .

 
At 12:53 da tarde, Blogger Jorge Melícias said...

Situe-me lá, Henrique. Confrontação entre o quê e a partir de quê?

 
At 12:59 da tarde, Blogger hmbf said...

Melícias, sem vontade alguma para polemizar, até porque estou fisicamente desgastado, a ideia é apenas, a quem o deseje, poder confrontar a amostra da poesia do JLP no Bibliotecário com a amostra da poesia do JM na Pálpebra. Podemos assim, julgo, ficar com uma ideia das razões da sua falta de respeito pela poesia do JLP.

 
At 1:12 da tarde, Blogger Jorge Melícias said...

Henrique Fialho: não era esse o intuito, de todo. Por certo a inaptidão será toda minha mas não encontro qualquer amostra da minha poesia no endereço por si indicado.

 
At 1:17 da tarde, Blogger hmbf said...

Pronto, ficam aqui na íntegra: http://www.revistazunai.com.br/poemas/jorge_melicias.htm

 

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