25.11.08

LIDOS OU RELIDOS EM 2008 (9)

“Contos Fabulosos”, Millôr, Desiderata (2007)



1. O desenvolvimento da micro-ficção em Portugal – o tamanho dos textos deste livro varia entre algumas linhas e três páginas - vai contribuir para que a prosa em geral perca o tom grandiloquente que ainda vive fascinado com barroquismos bacocos. O barroquismo de António Vieira ou Saramago não é bacoco, mas eles são duas activas excepções.

2. “É” como as artificiais telenovelas portuguesas, onde umas dúzias de palermas sem talento ganham o seu à custa do nosso (qualquer palavra do reportório freudiano servirá aqui).

O tal português é cerimonioso por excelência, que é a forma menos inteligente de ser-se parolo. Destes, tolerem-se os castiços, gozados sombriamente de inuendos mais estrangeirados.

3. Millôr (escritor brasileiro nascido em 1923, sobre quem podem encontrar alguma coisa
aqui) conta histórias de bandidos, abelhas, vizinhas de cima, e o que o distingue do tom português ainda dominante é isto: o jeito de conversa, de quem conta uma história com a despreocupação que a escrita portuguesa não costuma ter nas trans-/cri(a)ções (!) das falas. Curiosamente, é preciso voltar a falar de Saramago: foi ele, um barroco de formação e gosto, quem revolucionou a pontuação com o objectivo de aproximar a palavra escrita da palavra falada.

4. Millôr não revoluciona nada. Mas os portugueses deviam ler mais os escritores brasileiros.



Rui Costa

5 Comments:

At 4:47 da tarde, Anonymous Fundação Eugénio de Andrade said...

DEBATE SOBRE BLOGUES DE POESIA

No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.
A entrada é livre.


FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ANDRADE
Rua do Passeio Alegre, 584
4150-573 Porto

 
At 7:46 da tarde, Blogger mcp said...

Olha que bem!

 
At 10:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

saramago não é animal barroco bacoco, já o pato é animal gramático e aquático.

 
At 1:58 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Gostaria de fazer um comentário sobre o escritor lido: Millôr, provavelmente o maior escritor brasileiro vivo, revolucionou sim, mas não nesse livro. Ele começou a trabalhar na imprensa muito jovem. Na coluna Pif Paf da então importantíssima Revista Cruzeiro, já desenvolvia um estilo original. Ficou lá vinte e cinco anos, até ser demitido por pressão dos católicos (ele havia publicado uma sátira sobre o Paraíso).
No ano seguinte, 1964, um mês após o golpe militar no Brasil, Millôr resolveu criar uma revista (Pif Paf, justamente) contra o novo regime. A polícia fechou-a depois do oitavo número. Nessa revista, ele prosseguiu a revolução no jornalismo brasileiro, que despia a casaca e descobria um tipo brilhante de humor. No célebre Pasquim, essa revolução prosseguiu, com outros companheiros de jornada, alguns já presentes em Pif Paf, como Fortuna, Claudius, Jaguar e Ziraldo.
Abraços,
Pádua Fernandes

 
At 2:45 da manhã, Blogger durtal said...

Decrete-se, amigo Rui, o fim de toda a ficção que não seja micro. Satisfeito? Democracy in action, não? Ou democracy inaction?
Acho muito bem que 'a prosa em geral perca o tom grandiloquente que ainda vive fascinado com barroquismos bacocos'. Mas reconheça-se o direito às narrativas 'de mais de três páginas'. Uma tua paixão recente, a da micro-ficção, e esmagadora. Mas, com manifestos destes, o que fazer com o teu romance? E o que farás com os que ainda preparas? Uma grandiloquência nova, virgem, inatacável, simplesmente... diferente? Saramaguesca, Viêirica?
Algumas prosas com mais de três páginas entusiasmam, outras maravilham, ainda outras iludem ou desiludem e horrorizam, e não esquecer as que dão boa conta das nossas Insónias.

 

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