21.11.08

APRENDER A CONTAR #48

ROBERTINO

Robertino, o brasileiro, falava de Zurique onde estivera um ano, com tal imprecisão que não me convencia. No restaurante italiano discutiu com o criado a confecção da lasagna e disse o mal que pôde dos portugueses que havia conhecido. Tinha o olhar duro que batia como uma pedra na minha disponibilidade quase enternecida. Fizera uma viagem de barco com um polaco clandestino que lhe mostrara no camarote maços de notas inglesas, alemãs e suíças, juntamente com relógios e jóias de senhora. ― Tive medo a princípio, depois habituei-me e passávamos as noites no bar, servidos por um malaio ― continuava Roberto, enquanto devorava a lasagna, visivelmente esfomeado. E a minha disponibilidade, quase curiosa, fazia-me abrir a carteira para pagar o jantar.
Mais tarde, já em minha casa, acompanhou com voz feminina, essas canções um tanto metálicas que deram fama a Elis Regina. E chorava.
Ele fora baby-sitter na Suíça, homem a dias na Alemanha e cozinhara uma noite para o actor Helmut Berger, numa casa de amigos. Mas Robertino trocava datas e lugares, tinha a memória fraca e pouca perícia para mercenário. Ainda por cima exibia uns flancos gordos e eu conhecera-o numa exposição de pintura.
Sou um padre, Roberto, acabei por dizer. Dou-te a minha bênção. Podes percorrer com ela os caminhos da vida.
Quando ele se foi embora corri para a casa de banho e vomitei: a minha dieta não conseguira suportar tanta gordura imaginada.

Armando Silva Carvalho (1938), O Que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim, p. 356, Março de 2007.

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