22.1.09

A DEFINIÇÃO DO AMOR (2)

"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio e quatro paredes."
Eugénio de Andrade, Adeus

Escrevi tantas vezes a palavra pai que lhe gastei todo
o significado. Quando agora escrevo pai, já não sinto
as barbas a roçarem a minha mão macia, as rugas que
os anos transportaram para a sua face, os óculos, os
dedos, a voz com que me chamava filho como se eu

me escrevesse pai. Gastei tudo o que uma palavra pode
dizer porque esqueci a sua memória. Gastei-a em maus
poemas e em maus romances, poemas e romances com
a foz ao fundo e a mãe segurando-me o corpo pequeno
sobre o muro que ladeava a praia. Gastei-a

definindo-lhe as letras, alargando-lhe o significado.
Gastei-a tirando-lhe a dízima infinita e não periódica
e colocando-lhe, depois da letra que se salvou, o mar
fechado no seu interior. Gastei-a a tentar definir o amor.


Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão no ano de 1977. Estudou Astronomia e Biologia, dedicando-se posteriormente à edição. É responsável pelas Quase Edições. Estreou-se na poesia com o livro à memória das pulgas da areia (1999). Tem colaboração dispersa por várias antologias e revistas literárias, tendo sido co-director da revista Apeadeiro. Além de poesia publicou obras de ficção e organizou algumas antologias, entre as quais o volume Anos 90 e Agora – Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa (2001), posteriormente revista e aumentada. O poema que aqui reproduzimos foi copiado do livro Biologia do Homem (Quasi, 2004).

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