21.1.09

APRENDER A CONTAR #61

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CONTO, n. Uma narrativa, normalmente falsa. A verdade das histórias que a seguir se transcrevem, no entanto, não foi ainda desmentida:

Uma noite, o sr. Rudolph Block, de Nova Iorque, deu por si sentado ao lado do sr. Percival Pollard, o famoso crítico.
«Sr. Pollard», disse ele, «o meu livro, Biografia de uma Vaca Morta, foi publicado anonimamente, mas não acredito que desconheça a sua autoria. E, no entanto, na sua crítica fala dele como a obra do Idiota do Século. Acha mesmo que é assim que se faz crítica?»
«Peço desculpa, caro senhor,» disse o crítico num tom amistoso, «mas não me ocorreu que podia não querer que o público soubesse quem o escreveu.»

O sr. W.C. Morrow; que vivia em San Jose, na Califórnia, dedicava-se a escrever histórias de fantasmas que faziam o leitor sentir-se como se uma fila de lagartos, acabados de sair do gelo, passasse a correr pelas suas costas para logo se esconder no seu cabelo. Nessa altura, acreditava-se que San Jose era assombrada pelo espírito visível de um conhecido bandido chamado Vasquez, que tinha sido lá enforcado. A cidade era mal iluminada, e não exagero se disser que os seus habitantes não saíam à noite sem alguma relutância. Numa noite particularmente escura, iam dois cavalheiros a conversar na rua, em voz muito alta ― para não perderem a coragem ― e, num dos sítios mais isolados da cidade, encontraram o sr. J. J. Owen, um reputado jornalista.
«Ora, sr. Owen», disse um deles, «o que o traz aqui numa noite como esta? Foi você que me disse que este é um dos sítios que o Vasquez mais gosta de assombrar! E você é dos que acreditam nessas coisas. Não tem medo de andar aqui na rua?»
«Meu caro amigo», respondeu-lhe o jornalista, com uma lúgubre cadência outonal na voz, como o som do vento que arrasta as folhas, «eu tenho medo é de estar dentro de casa. Tenho um dos contos do Will Morrow no meu bolso e não me arrisco a entrar num sítio onde haja luz suficiente para o ler.»

O General H. H. Wotherspoon, presidente do Colégio de Armas Militares, tem um babuíno como animal doméstico, com uma inteligência pouco comum, embora não deva muito à beleza. Uma noite, regressando ao seu apartamento, o General ficou surpreendido e aborrecido por encontrar o Adam (pois, sendo o general um Darwinista, era este o nome do animal) sentado à sua espera e envergando o melhor casaco do uniforme do dono, com insígnias e tudo.
«Oh meu antepassado remoto perturbado!», gritou o grande estratega, «o que é que andas a fazer fora da cama a estas horas? ― e com o meu casaco vestido!»
Adam levantou-se e, com um olhar de reprovação, pôs-se de quatro patas, como é próprio da sua espécie, e foi buscar um cartão de visita: o General Barry tinha aparecido e, a julgar pela garrafa de champanhe vazia e pelos restos de charutos, deve ter sido recebido com toda a hospitalidade enquanto ali esperava. O general pediu desculpa ao seu fiel antepassado e retirou-se. No dia seguinte, encontrou o General Barry; que lhe disse:
«Spoon, velho amigo, quando saí de tua casa, ontem à noite, esqueci-me de te fazer uma pergunta acerca daqueles charutos maravilhosos. Onde é que os arranjaste?»
O General Wotherspoon nem se dignou a responder, afastando-se imediatamente.
«Desculpa, por favor», disse Barry; seguindo atrás dele, «eu estava a brincar, é claro. Olha, eu percebi logo que não eras tu quando ainda nem tinham passado quinze minutos.»

Ambrose Bierce (1842-1914?), in Dicionário do Diabo, trad. Rui Lopes, Tinta-da-China, pp. 38-40, Janeiro de 2006.
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