1.12.05

Listar as Listas


As listas de livros de fim de ano são uma nulidade. Mais do que lembrar, elas pretendem, na sua grande maioria, fazer esquecer. Fazer esquecer que para lá das leituras, por vezes anacrónicas, dos fazedores de listas, há todo um mundo de títulos que ficam por referir. Títulos que, muitas vezes, nem sequer chegaram à menção honrosa duma página de jornal. Agarra-se assim num molho de títulos como quem agarra num molho de brócolos e dá-se-lhes, pela derradeira vez no ano corrente, nova montra. Ele há de tudo: amigos que citam amigos, admiradores que citam admirados de quem gostariam de ser amigos, ex-privados de privações privadas, coisas de ano transacto a cheirar a mofo, carrosséis de literatos, ementas à chefe, inventários de estrelinha cinco, recortes da especialidade ao longo de 12 meses de penosa conspurcação. O mundo literário (português?) é nojento. Um amigo dizia-me no outro dia que é preciso, cada vez mais, levantar a voz contra tal nojice. Eu, confesso, não tenho muita vocação para homem do lixo. O meu labor de desratização é diário, um labor de resistência contra os iscos da amizade a conta gotas. Não me é de todo indiferente o efeito eco que reina no meio. A gente olha para os jornais e isso é evidente: críticos que editam livros em editoras cujo catálogo lhes merece a maior das atenções e os mais desbragados encómios. As polemicazinhas que há, de tão inócuas que são, servem apenas para todos se citarem uns aos outros. Na fotografia da posteridade, a julgar pelo que se vai vendo, ficarão meia dúzia de prostitutas literárias a engendrarem ardis com o objectivo de demarcarem os respectivos territórios. Todas com muita obsequiosa delicadeza. Se calhar sempre foi assim, se calhar será sempre assim. Daí que me apeteça, desde já, ir avisando: aqui não se elaborarão listas de fim de ano. E as que eventualmente vierem a elaborar-se, terão apenas em conta um critério: mencionar o que mais ninguém mencionou.

5 Comments:

At 3:21 da tarde, Blogger jpt said...

Fica-se à espera. Atento e curioso desse critério enciclopédico.

Uma opinião: diz que "O mundo literário (português?) é nojento." Ó homem o "literário (português)" não estará a mais?

 
At 3:33 da tarde, Anonymous Anónimo said...

desde já, para a lista das listas listadas, este aqui: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2005/10/nos-joelhos-do-silncio.html.

 
At 4:28 da tarde, Blogger jpt said...

Olha nem mais. Tinha-me passado esse texto. Digo que é o melhor que li sobre o livro (também só li mais dois, o elogio não é quantitativo, e ambos no hermético floreado). Se me dá licença (e dará, decerto) vou roubar lá para o ma-schamba, uma ligação claro, a ver se alguém daqui o lê.
Eu não referi o livro, penso que ele não foi publicado cá (eu comprei-o em lisboa), o que é um absurdo (Ainda para mais a caminho tem a ndjira aqui). ou se foi foi tipo 75 exemplares, esgotados na hora. sei que foi lançado na beira, terra do HB. Em Maputo nada.

 
At 4:29 da tarde, Blogger jpt said...

lançado no sentido de apresentado, discurso, chamussa imagino, e pronto

 
At 6:50 da tarde, Anonymous Anónimo said...

jpt

agradecido pelo elogio
mas o que vale mesmo
é o livro de heliodoro
façamos os links que quisermos
pelos versos tudo vale
ou quase

saúde

 

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