7.9.05

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

Al Berto

Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares) nasceu em Coimbra, a 11 de Janeiro de 1948, tendo vivido em Sines até à adolescência. Frequentou o curso de Pintura da Escola António Arroio e o curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. Em 1967 exila-se em Bruxelas, onde frequenta a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels. Em 1971 abandona definitivamente a pintura, assumindo-se cada vez mais como «autor de textos literários», a par da sua actividade como animador cultural e da experiência como editor, iniciada após o regresso a Portugal, em 1975. Desde então, viveu entre Lisboa e Sines, onde procurou em vão as referências físicas da sua infância. De entre a sua bibliografia contam-se vários livros de poesia, reunidos no volume O Medo - distinguido com o Prémio PEN-Clube de Poesia. Publicou ainda um livro em prosa intitulado Lunário (1988). Faleceu a 13 de Junho de 1997, em Lisboa, poucos meses depois de ter publicado o seu último livro: Horto de Incêndio. (da Notícia Biográfica incluída em O Medo - Trabalho Poético 1974-1990, Contexto/Círculo de Leitores, Outubro de 1991.)

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