30.12.05

Entanto, enquanto dói,
ouçamos folhetins (de rádio ou doutros):
(cavalgam pelo
écran fotogénicos potros
e a rapariga beija o seu cow-boy).

A solidão é chaga que rói, rói?
Não pode a vida suportar o mito?
(Devora as unhas o espectador aflito,
não vá morrer de tiro ou tédio o herói).

E há quem diga que o diabo foi
o responsável desta história toda.

(Nem fomos convidados para a boda
leia-se FIM – da moça e do cow-boy).

Daniel Filipe

Daniel Filipe nasceu na Ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1925. Morreu novo, em 1960, mas deixou uma obra consistente marcada pelos sentimentos de solidão e exílio. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Colaborador das revistas Távola Redonda e Notícias do Bloqueio, estreou-se em livro no ano de 1949 com Missiva. A sua obra mais conhecida é porventura A invenção do Amor e Outros Poemas, publicada em 1961, após a edição de uma novela, O manuscrito na garrafa, e o Prémio Camilo Pessanha, pelo livro a Ilha e a solidão (escrito sob o pseudónimo de Raymundo Soares), no ano de 1956. Combatente da ditadura salazarista, foi perseguido e torturado pela PIDE. Trabalhou na extinta Agência-Geral do Ultramar e na área jornalística. Grande parte da poesia de Daniel Filipe destaca-se pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe valeu o estigma de poeta neo-realista.

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