1.2.06

FALAR SOBRE OS AMIGOS

Só estamos por aqui a falar sobre o crítico falar sobre os amigos porque o que nos preocupa é a honestidade de um profissional no exercício do seu trabalho. Então o tema é: honestidade.

1. Não é desonesto um crítico fazer uma crítica do livro de um amigo, no entanto pode ser desonesto um crítico fazer uma crítica do livro de um amigo.

2. Podemos distinguir dois momentos na actividade do crítico:

a) o momento da escolha da obra que vai criticar;
b) o momento da elaboração do conteúdo da crítica.

3. Quanto ao momento da escolha:

3.1 Se o crítico decide fazer a crítica porque o autor é seu amigo, esse crítico é desonesto, independentemente de fazer uma crítica boa ou má;

3.2. Se o crítico decide fazer a crítica porque considera o livro importante e merecedor de uma crítica, o crítico não é desonesto quanto ao momento da escolha (mas pode sê-lo quanto ao segundo momento).

4. Note-se - e isto é importante - que a expressão "crítica boa ou má" pode ter dois sentidos:

a) "crítica boa ou má" no sentido de "dizer mal" ou "dizer bem" da obra em causa;

b) "crítica boa ou má" no sentido de ser uma crítica competente ou uma crítica incompetente.

5. Uma crítica que seja honesta ou desonesta quanto ao momento da escolha, pode ser honesta ou desonesta quanto ao segundo momento, o momento da elaboração do conteúdo da crítica (pontos 2. e 3. acima).

5.1. será uma crítica honesta se for uma crítica que não exagere ou diminua os méritos e imperfeições da obra pelo facto de o autor dela ser "seu" amigo;

5.2. será uma crítica desonesta se for uma crítica que (de forma necessariamente injusta) faz depender aquilo que concretamente é dito "daquele" critério extra-literário (a amizade).

6. É certo que estes dois momentos nem sempre são fáceis de distinguir, nem na cabeça do crítico nem na cabeça de outra pessoa. Mas parece-me que se podem distinguir (imperfeitamente) e têm o mérito de ajudar a perceber certas "nuances", muitas vezes esquecidas, sendo de destacar a seguinte situação (e já estou, em parte, a repetir-me):

O crítico pode fazer uma crítica competente do ponto de vista da elaboração do conteúdo da crítica - apontando "virtudes" e "defeitos" na obra, de forma que até pode ser justa - mas ter decidido "pegar" naquele livro por ser de seu amigo - neste caso é desonesto, porque seleccionou a obra a criticar em função de critérios extra-literários (amizade ou qualquer forma de proximidade com o autor). E é desonesto de duas formas importantes:

- por acção: está a privilegiar o amigo;
- por omissão: está a enxotar para o esquecimento outra(s) obra(s) que valem mais e são mais importantes e que, por causa da desonestidade do crítico, vêem o seu mérito literário secundarizado em atenção a critérios extra-literários.


Rui Costa

2 Comments:

At 1:44 da tarde, Anonymous hmbf said...

O que está na base de uma decisão são motivações não observáveis. Logo, nunca será possível determinar da honestidade ou falta dela do crítico que resolve escrever sobre um livro de um amigo. A questão essencial é outra, por ti abordada na conclusão final: enxotar certos livros para o esquecimento, dando excessiva visibilidade a outros (independentemente de terem mais ou menos qualidade, coisa por si só difícil de definir a priori). Aí é que está o problema. Mas como resolvê-lo? Estou certo de uma coisa. Não é com suplementos de meia dúzia de páginas dedicadas a livros (quando tantas), que o problema poderá ser resolvido. Nos jornais a coisa é muito complexa. Há pouco espaço para tanta gente a pretender aparecer. E depois há, de facto, os pobrezinhos do costume: a malta da filosofia, das ciências sociais, da ciência, o ensaio e coisa e tal que é sempre preterido para secundaríssimo plano em função do romance (esmagador) e da poesia (logo a seguir). Ainda assim, deixa-me dizer que, amiguismos aparte, gostei do teu tratado.

 
At 6:49 da tarde, Anonymous Anónimo said...

é verdade que há coisas do domínio psicanalítico :) mas é bom que se saiba que nem toda a gente anda a dormir...
Rui Costa

 

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