18.5.06

delírio dor febre rio onde tinha as raízes
deste desencanto das coisas diariamente traindo-se
quando nem mesmo na água me distendia
(nem seria provavelmente pela ausência de janela
donde dependurar as mãos-apaziguamento)
ou seja quando nem mesmo o púbis à tona do banho
escavava na inércia uma presença de espuma.
e por que havia de? às vezes era o enfado
tão bastas vezes em dados tempos que:
os olhos longe a boca uma linha por cortar
os seios imóveis na concha do soutien o ventre
de duna achatando-se paulatinamente o umbigo
sentinela na guarida o sexo retomando por desfastio
memórias idas as coxas diapasão inútil entre lençóis
os tornozelos cianosados os miolos enfim no topo
da pirâmide como entulho. que paisagem esta assim?
delírio febre contusão e o sono abrindo-se tão alto
como a lua nesse crescendo dela consumindo-se
até que tudo não fosse mais que rasgão.

Wanda Ramos

Wanda Ramos nasceu em Angola em 1948. Filha de pais portugueses, veio viver para Portugal com apenas dez anos. Colaborou com diversas publicações. Publicou o seu primeiro livro de poemas, Nas coxas do tempo, em 1970. Autora de algumas obras de ficção, desenvolveu intenso trabalho enquanto tradutora de escritores tais como Borges, Octavio Paz, Tagore, John le Carré, entre outros. Foi galardoada com o Prémio Literário Cidade de Almada para romances inéditos pelo romance Litoral (Ara Solis). Em 1986 publicou Poe-Mas-Com-Sentidos, livro no qual colhemos o poema acima transcrito. Faleceu em 1998.