5.6.06

A culpa é do mexilhão

Ainda mal tinha assentado praça, a Ministra da Educação já era alvo de todas e mais algumas críticas por parte dos sindicatos dos professores. Os professores queixam-se de perseguição ao mesmo tempo que fazem marcação cerrada à ministra. A ministra persegue os professores, os professores perseguem a ministra. Quem é o coelho nesta história, a gente nunca saberá muito bem. A grande discussão agora, pasme-se, é de quem é a culpa do estado a que chegou o ensino em Portugal. A ministra diz que é dos professores. Os professores dizem que é da ministra. Eu sempre achei que um dos maiores problemas deste país é a paranóia da culpa. Ninguém quer ser culpado, achando sempre que a culpa é dos outros. O tempo vai passando, os culpados não se acusam, tudo continua na mesma. Pois eu acho que a culpa é de um país de merda, com políticos de merda, ministros da educação merdosos, professores cagões, de merda, pais de merda, alunos de merda. A culpa é da merda em que este país se tornou. Dito isto, partamos para a limpeza. Vou ali vender uma aula, volto já.

13 Comments:

At 2:46 da tarde, Blogger Barão Von Sacher-Masoch said...

Não querendo colocar em causa a sua teoria do mexilhão - bastante em voga nestes tempos - nem achando que encontrar culpas - acto demasiadamente neurótico para o meu gosto - tenha alguma utilidade, mesmo tendo em conta estes dois pontos, parece-me que se existe culpa, essa é da uma, digamos, plácida impotência da nossa identidade nacional e do valor que cada um, individualmente, acha que tem no processo de decisões em Portugal.
Já à muito tempo que os políticos são os "eles" e nós somos "nós", numa clara diferenciação entre uns e outros... e isso é uma preversão daquilo que se concebe como sendo uma democracia.
Todos - "nós" e, principalmente, "eles" - se desligaram perigosamente do comum, da direcção, do objectivo...
Se não puxarmos o autocolismo (partindo da sua sugestão fecal :)), alguém poderá vir com a sua benevolência caridosa e puxa-o por nós, ou não... e aí, a trampa ficará à espera de mais trampa, e esta acumular-se-á, até não caber mais... até ao ponto de que um simples despejo do autocolismo, dois, três, já de nada serevirem... tem de se trocar a retrete... talvez a canalização... quem sabe, o edifício... ou o quarteirão. Têm medo? Dá trabalho?
Culpa:
Os professores são culpados de não cumprirem aquilo que têm de cumprir. Mas o que é um facto é que também não são muito estimulados a tal.
Os alunos têm culpa de não cumprirem o seu papel. Mas também, para quê cumprir?, se o mundo lá fora é de oportunidade e acaso, mais do que competência?
Os pais têm culpa de serem atavicamente exigentes. Mas também, quem esperaria outra coisa, vivendo na pel as dificuldades do quotidiano.
O governo - "eles" - têm culpa por não despejarem o autocolismo, por não trocarem de retrete, por não trocarem a canalização, por não trocarem o edificio, por não trocarem o quarteirão, por não tomarem as decisões certas, por não terem visão de comum e funcionarem a partir daí, por terem medo da mudança, por se prostrarem a interesses "de força maior" de avental, ou qualquer outra peça de vestuário ridicula e sem função.

 
At 3:08 da tarde, Anonymous R. said...

Sem embargo concordar com as ultimas linhas, ou seja, assumindo sem contemporizações que também sou uma merda, sem qualquer ironia - "todos somos responsáveis por tudo perante todos" foi uma frase que muito aprecio e li há tempos neste blogue -, parece-me no entanto claro quem persegue quem. Vê-se aliás naquilo que a proposta de ECD tem de coercivo(http://blogdosindocentes.blogspot.com/2006/05/inacreditvel.html). Não só na proposta, também na último despacho brilhante do SE Valter Lemos, ao obrigar professores doentes a regressarem às escolas de origem no domingo de Páscoa, autentico atentado aos direitos humanos (porque havia de facto quem estivesse doente). É, resumindo, que estou cansado de exemplos, a atitude habitual do ME, a propaganda mentirosa, a forma maquiavélica como manipula os sentimentos mais baixos presentes na sociedade portuguesa para atacar os professores. Com dois objectivos: poupar dinheiro e falsear, forçar, resultados... Já não é apenas eduquês, é eduqueconomês puro e duro! Pegunto: em que país civilizado um ME ataca descaradamente? Pergunto: em que país civilizado um ME ataca os professores descaradamente? Pergunto: em que país um ME ataca os professores, chamando-lhes incompetentes e preguiçosos, culpando-os por todo e qualquer insucesso na Educação? Um só exemplo de país onde se governe assim e faço um mea culpa!
Por outro lado, não me parece que os professores sejam capazes de perseguir sequer uma alma penada! São tão amorfos como o resto, tão como a outra gente: são insultados vergam a espinha, são novamente insultados ajoelham, espezinham-nos e deitam a língua de fora (ainda não percebi bem se por cansaço ou lubricidade).
Sim, há a merda do ME por um lado e a merda dos sindicatos por outro, e de um ao outro extremo vai um imenso deserto, ou pantanal, para continuar fiel à terminologia do post! Porque o que agora está em causa, apesar de sucessos e insucessos, é uma proposta de ECD que nunca passaria em nenhum país da Europa, porquanto contém de injusto e até de irracional (e com a conversa bem arranjadinha dos pais avaliarem os professores lá há-de tomar forma quase na íntegra, exceptuando esse aspecto de somenos que, sendo preciso, há-de o ME de bom grado retirar, não fossem chamar-lhe autoritário, que não ouve os outros, blá blá blá). Mas mesmo que não fosse por isso, mesmo sendo justa, nunca passaria por outra simples razão: por haver mais de noventa por cento dos professores contra (pelo menos isso afirmam), o que resultaria em mobilização ... Claro que não me refiro às estéreis greves de um dia antes de feriados para contentar sindicatos, para os docentes descarregarem a consciência com catarses tipo "eia, nós estamos aqui a lutar, professores unidos jamais serão vencidos" ou alguns usufruirem de fim de semana de três dias (conheço até quem já tenha pedido a sexta-feira)...
Em resumo: somos uma merda, é verdade, mas também, talvez sobretudo, por sermos servis! Foi sempre assim e ainda é comme si comme ça, lembrei-me até agora de um senhor que está no Guiness e de um conjunto de artigos que saiu no Público há duas semanas, no suplemento Y, sobre filmes e livros acerca desse senhor, quero dizer, esse gigantesco cagalhão!

P.S. Onde escrevi merda ou qualquer outro termo escatológico leia-se em itálico!
P.S.2: Apesar de aqui vir muitas vezes, há muito que não participava. Calhou ser logo assim, mas também me apeteceu desabafar! (Des)Culpem qualquer coisinha!

 
At 4:37 da tarde, Anonymous O COISINHO DA ANACONDA EMPLUMADA said...

de facto a culpa e de todos esses.no outor dia ouvi um psicologo dizer categoricamente que a culpa e dos pais(simplismo);pais e stores dizem que a culpa e do entretenimento contemporaneo...(simplismo);alunos dizem que a matematica a filosofia a literatura a historia... nao interssam nada(ignorancia).
essa frase do dostoievski citada pla r. e uma hiperbole(genial)-parece-me obvio.conquanto creio que prefiro esta iluminacao: Quem poderá definir, matematicamente, o porquê de passarmos pelo mundo como se não fossemos o mundo a passar por nós?(de um tal henrique);)

 
At 5:57 da tarde, Blogger FAG said...

Sobre educação e professores, considero-me leigo. Como pai de estudantes (até há pouco tempo e em várias épocas) sei que o ensino piorou desde os anos 80, que os programas se foram tornando cada vez mais aberrantes. Sobre professores, com quem gostava sempre de falar, e não só nas reuniões para esse efeito, encontrei do melhor e do pior. Mas o pior era mesmo péssimo, do género: «esta menina não pode empregar a palavra obsoleto porque não é da camada etária dela». Enfim, tenho de parar aqui, depois continuo

 
At 8:38 da tarde, Blogger jpt said...

o ensino nos anos 80 tinha piorado em relação ao dos anos 60. conta quem sabe. e quem sabe disso também diz que o ensino dos anos hippies tinha piorado em relação ao dos anos 40. este era, a arqueologia sabe-o, uma mera sombra do dos anos 20. o cujo, republicano, em muito tinha piorado face ao dos anos 00, saudável educação monárquica. prejudicado, é certo, por alguma anarquia social, piorando face ao dos anos 80 (de 1880, claro). de século em século, eu cumpri um, venham outros para reafirmar a sábia conclusão, dantes é que era bom, coisa de todas as gerações. eras. se´culos.

gostei dessa do vou ali vender uma aula - é insuportável a ideologia displicente, seráfica e benfazeja escondida no "dou aulas". dá o caraças, é isso mesmo.

aliás, davam-se aulas no meu tempo, mas esse já lá vai, mas esses eram bons tempos, com a 4ª classe sabia-se mais do que hoje muitos doutores

 
At 8:58 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"com a 4ª classe sabia-se mais do que hoje muitos doutores" até me dá um arrepio quando leio isto. Vem acompanhado da voz do meu pai, que continua a achar que sou ignorante porque não sei de cor as linhas-férreas do país.
Até consigo imagina-lo a citar os rios de Angola, fronte a um crucifixo e à inevitável fotografia do Salazar.

Aurora.
ps: excluindo esta linha, até concordo com o jpt

 
At 10:42 da tarde, Blogger FAG said...

Continuo, e continuo a falar como observador não especializado: nos anos de 1980 tive dois filhos na escola e pude comparar, empiricamente, que o ensino piorou em relação ao ministrado nos anos 2000 a outra filha minha. Por outro lado, sei que o ensino que sofri nos anos 60/70 era inferior ao ensino de 2000, pelo que o jpt talvez generalize sem razão.

 
At 7:34 da manhã, Blogger jpt said...

para quem não tenha percebido, e isso sim me dá arrepios, o jpt (que não sabe como está o ensino - seja ele qual for - no rincão), acha tudo menos que "ó tempo volta para trás". sabe sim, de certeza certa, que a memória é selectiva e que dantes é que era.
o jpt gosta de fado, até do "ó tempo volta para trás". mas não tem saco para o ilustre Liceu Camões nem para os lentes da Universidade de Coimbra.

o jpt, já agora, tinha 9 anos no 25 de abril e depois aprendeu sob o paradigma do trabalho de grupo - a história era o comércio de trigo ou milho, ou lá o que era, na mesopotâmia (aos 12 anos) e a matemática era em trabalho de grupo. os professores tentavam comprrender os anseios da juventude e, paralelamente, tinham medo da rapaziada. isto nos anos 80

educação física não havia, línguas clássicas também não, aulas começavam o mais cedo em meados de novembro, faltas eram mato, bibliotecas não havia, o centro de lisboa, neo-burguês, filhos de casais novos misturados com o moribundo operariado. camões era a introdução, professores putos perdidos no mato. o jpt lembra-se dos 6 professores em 5 anos com quem aprendeu.

o jpt acha porreiro quando lhe dizem que agora é pior. sente-se novo, diferente dos gerontes saudosistas do tempo dele

o jpt não vive aí. não sabe como está a "escola". vende aulas lá fora (obrigado hmbf, eu também digo muito isso do vender aulas)

 
At 9:19 da manhã, Blogger FAG said...

A mim, acusarem-me de «tempo volta para trás» é ofenderem-me. Dizer que no rincão a educação vai de mal a pior, que os putos aprendem cada vez menos e não tarda a não conseguirem preencher um impresso simples no fim do secundário, de saberem mais da novela do que da vida real - dizer tudo isto, porra, não é querer que o tempo volte para trás. Além disso falo como matarruano provinciano e depois suburbano, do liceu Camões só conheço as grades da parte de fora quando ia ao arquivo de identificação. Só sei que, porque vi, nos anos 80/princípios de 90 um puto russo que sabia a matemática que aprendeu em Moscovo na quarta classe da primária, ensinava os colegas portugueses no 9º, 10º, 11º anos, e que, dez anos depois, ensina provavelmente não só os colegas mas também os professores. Os professores não só «vendem aulas» como quem vende t-shirts, também defendem a sua corporação com unhas e dentes, e para isso têm uns sindicatos altamente qualificados para essa defesa. O sindicato matou a vocação pedagógica, e que me chamem reaccionário.

 
At 12:55 da tarde, Blogger jpt said...

fag, uma boa polémica é porreiro, mas se calhar assim não vale. no a-correr de comentários já aí deixei que tendo andado na escola secundária nos anos 70+/80- poucos professores tive de jeito. que a escola era uma confusão (num dos anos as aulas começaram em janeiro, nos outros em novembro e muito) - o que não era culpa dos professores. que aquilo era um traste. eu, puto, tinha termos de comparação, vinha de um colégio particular. muito bem preparado, capital para deixar de estudar e ser o melhor da turma (3) anos a fio. três, repito..
não estou a dizer bem dos professores, acho que são tão maus como o resto. e como os antepassados deles. não estou a dizer bem do sindicato, não sou sindicalizado e se o fosse não poderia ser do sindicato dos professores. [já agora sobre alunos acho que os pais saõ uma boa merda. a única vantagem deles é naõ terem sindicato nem ministro das paternidades para a gente arranjar polémicas sobre eles]
o que digo é que o discurso escatológico é constante. dantes é que era bom - se v. acha que se ofende com isso azar

Tenho uma amiga que estudou na russia (soviética, dizia-se então). lá lhe nasceu a filha mais velha, por lá foi crescendo no anos da creche e infantil, hoje já adulta. aí sempre foi a melhor aluna, ciências e o resto. trabalho e lógica. perseverança. diz ela que, ainda por cima sendo diferente dos irmãos mais novos, que a miuda pensa (e actua) como uma russa - aprendeu na creche, na infantil (depois foi para portugal). Que tal começar a dizer mal das senhoras da creche? do sindicato dos educadores de infância? ISto da indução tem que se lhe diga.

Eu do Camões nada conheço. só as histórias dos grandes vultos que referem os grandes vultos que lá lhes foram professores. Bons tempos, grandes mestres e ínclitas gerações de alunos. Volta e meia morre um, ou aniversaria o cadáver e lá se lêem as memórias. Porreiro, bem melhor do que agora. O resto dos malteses ia ficando analfabeto ou aprendia a ler e a contar, descalço aaté às botas da 4ªa classe. os mais remediados iam para marçanos ou para a escola comercial. os filhos e netos destes continuam a dizer que então é que era, que agora é uma vergonha - isto é inconsciência? nada, é mesmo ascensão social. Cagança de burguesote que já sabe ler os letreiros do shop centre.

Isto é o geral. a si não o conheço, cruzo-o numa caixa de comentários. acha uma ofensa pessoal? olhe, azar, repito. mas é um bocado de egocentrismo, v. ecoa um sentir geral, quanto muito ofenda-se colectivamente.

 
At 2:16 da tarde, Blogger FAG said...

apenas «ó tempo volta para trás» me ofende, e apenas porque não defendo nem nunca defendi isso. E mesmo assim é uma ofensa abstracta, não tem a ver consigo jpt. Aliás, acho que tem razão: devemos dizer mal da situação (principalmente do ensino), porque é um facto, devemos até indignar-nos, e as comparações são desnecessárias. Aliás, na Rússia ainda soviética (e agora parece que é pior), só o ensino da matemática, da língua russa e da física era de alta qualidade, o resto era como cá - dizem os especialistas. A atitude de estar na escola e de fazer a escola é que era diferente. Já a formação dos professores deixava muito a desejar (parece que havia muita politiquice pelo meio). A situação aqui parece simples: nivelar por baixo, cada vez mais baixo (e não só na educação). O poder não quer pedagogos, não lhe convêm, e a culpa é de todos, é claro. Eu sei que, se falar mal dos professores (e falo) estou a falar mal de mim como pai e como cidadão. O que fazer? Criar uma escolinha muito boa para os nossos filhotes burguesotes e meter a outra maralha toda no caldeiro? Há tendência para isso, desde a América a Portugal.

 
At 3:12 da tarde, Blogger jpt said...

ok, assim é melhor. já agora, eu da rússia soviética nada sei, acredito no que me diz. quanto ao resto o dono do blog, que é até é professor, vai botando não mal

(isto não tem nada a ver, mas uma das educadoras de infância da minha filha, senhora muito bem formada, e rapariga para o inteligente, dizia-nos em convívio o outro dia para não exagerarmos na tv (e outros produtos similares). que não, vai pouquinho. e ela que sim, assim, que quanto mais meias dúzias de horas diárias menos capacidade de concentração (e agilidade) terão as criancinhas, inclusive na altura do acne e das menstruações. ao menos nas escolas as crianças não estão a ver tv. mas, se calhar, já não se concentram lá muito a ouvir mensagens só audio (e imagens só se em movimento. e rápido) - isto é minha demagogia de ignaro nos assuntos. mas se um puto alimentado a hamburguers e doces fica obeso um outro a tv/jogos não ficará obtuso? e depois a culpa de não ser atleta é do stôr de ginástica, malandro?

atençã: eu tenho barriga (isenta de hamburguers, vá lá) e vejo tv

 
At 12:31 da manhã, Anonymous hmbf said...

só para dizer que
a conversa vai boa
e eu estou a aprender
muita coisa

 

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