13.9.06

IN MEMORIAM OU A MORTE DO OUTRO

Abraçámo-nos como dois animais
indefesos à mercê do destino
com a alma partida de dor. E chorámos
sobre os nossos ombros esta pobre aventura
da vida à qual alguém, num mau sonho,
nos condena. Sentimos,
quando só saíam lágrimas da tua boca
e da minha, o fracasso de ser homens
e esse inútil consolo de partilhar
toda a nossa desgraça.
Estava a sala escura, tal qual o mundo,
árido o ar e sem alento como o nosso coração,
junto de nós não havia ninguém,
apenas o corpo de um homem face
à dura solidão da morte, e ao fundo vozes
de homens vivos que desprezavam viver.

Ao longo das horas e ao longo dos seres
a noite foi vertendo entre nós a sua cinza,
o seu demónio e o seu nada entre os que velávamos
aquele corpo defunto. Num canto uma mulher
gritava em vão a um deus que não existia.
E era a dor quem falava
ao estar abandonada diante da solidão,
ao sentir em seu redor o mundo desolado,
ao ver como o tempo arrebatava tudo e o homem
nada é neste cruel castigo da vida.
Como é absurdo amar diante da morte.

E queimaram-nos ainda mais os olhos
durante toda a noite aquelas súplicas
de desespero, sabermos
que nenhum tempo nem nenhum mundo
acolheria aquele corpo,
que depois da morte não há mais além
a não ser a hostil razão da matéria.

O pó nesse homem voltava ao pó
e ao nada o tempo, tal como a consciência
que até há pouco existiu.
E gelou-se-nos o sangue ao contemplar
que essas mãos sem vida tantas vezes
pegaram nas nossas, e essa boca que te beijou
e a mim falava de amizade
agora está parada e muda respirando o silêncio,
e esses olhos fechado, porque só na escuridão
se vê o vazio.

E pensámos, com as mãos tapando-nos
o rosto de terror, que esse pó,
esse nada, essa falta de consciência
era o futuro do nosso ser e o homem
um extravio da natureza
que a natureza ao fim negava.

E que esse dia que pouco a pouco se anunciava
limpo de ouro e de azul sobre a cal
do pátio, que fortalecia de luz o limoeiro,
podia ser o dia da nossa morte.

Tradução de Joaquim Manuel Magalhães.

Diego Doncel

Diego Doncel nasceu em Malpartida, Cáceres, no ano de 1964. Em 1990 venceu o Prémio Adonais, um dos mais importantes prémios de poesia em Espanha, com o livro El único umbral, publicado no ano seguinte. Seguiram-se Una sombra que pasa, em 1996, uma novela intitulada El ángulo de los secretos femeninos e, já em 2005, En ningún paraíso. Autor ainda de vários ensaios, Diego Doncel defende que «toda a poesia é intimista e autobiográfica».

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