9.10.06

VELVET

Não há hoje banda de rock estimável, dos Sonic Youth aos Franz Ferdinand, dos R.E.M. aos The Strokes, passando pelos Radiohead e quejandos, que não reconheça no legado dos The Velvet Underground uma fonte inesgotável de inspiração. Apesar de uma carreira fulgurante, concluída em pouco mais que três álbuns de originais, os autores de Venus in Furs revolucionaram de tal maneira o universo da música dita pop(ular) que não será desprovido de senso equipará-los, em termos de representatividade, às composições warholianas. De certa maneira, os Velvet terão sido mais uma criação/provocação do manager Andy Warhol, rapidamente transformados em ícones do underground nova-iorquino nos meados da década de 1960. Eis a versão de John Cale: «We were just anarchists. But we were anarchists with heart». Quanto a mim, não podia ser melhor. I’ll Be You Mirror, uma das últimas canções do primeiro álbum da banda, é exemplo dessa anarquia com coração, cuja revolução não tende tanto à imposição de valores como procura, em jeito de efeito publicitário e com extrema simplicidade – tal como na pop art de Warhol - , persuadir o outro a uma libertação mais mental que política – embora a primeira seja a condição essencial sem a qual a segunda jamais acontecerá. A voz da malograda Nico adquire aqui contornos tão eróticos quão trágicos, uma espécie de drama acoitado na sensualidade. Leia-se esta estrofe, traduzida para português por Luís Maio: «Custa-me a acreditar que não saibas / a beleza que és, mas se não souberes / deixa-me ser os teus olhos / um auxílio na tua escuridão / para que não tenhas de ter medo / Quando pensas que a noite penetrou os teus pensamentos / então, dentro de ti, cruel e retorcido / deixa-me ficar para te mostrar que és cega / por favor, baixa as tuas mãos / porque eu vejo como és». Esta capacidade de se exprimir pela palavra, conta Reed, foi adquirida na companhia do poeta Delmore Schwartz, de quem Reed foi aluno e a quem dedicou European Son. Delmore Schwartz, cuja morte praticamente coincidiu com o aparecimento dos The Velvet Underground, terá sido de uma importância fulcral na escrita de Lou Reed. O discípulo lembra o mestre: «Uma noite estava com Delmore num bar. Ele estava muito bêbedo e eu tentava levá-lo a casa. Disse-me que quando morresse e fosse desta para melhor, ficaria a observar-me. (…) Levei isso muito a sério.» Para a história ficou uma caixinha com cinco magníficos CDs: um de demos gravadas num arcaico gravador de quatro pistas, o álbum da banana – The Velvet Underground & Nico (1967) -, White Light/White Heat (1968), um álbum homónimo, já sem John Cale, em 1969 e o desconhecido Loaded (1970).

3 Comments:

At 12:08 da tarde, Blogger manuel a. domingos said...

uma das minhas bandas

 
At 6:20 da tarde, Anonymous Paulo José Miranda said...

Devemos levar a vida a sério, e as palavras de quem admiramos igualmente a sério.

A vida é séria, não é real.

Muito obrigado.
Abraço

 
At 8:57 da tarde, Blogger alvarêz dewïzqe said...

Elvis não foi muita coisa além de um rapaz bonito de voz bonita, o rock seguramente seguiria seu curso sem ele. Bob Dylan e Velvet Underground sim definiram rumos. Nuvens de maconha e picadas na veia e o estabelecimento de uma nova ordem. Mesmo os Beatles só fizeram música boa depois que se trancaram em um estúdio de Nova Iorque com o Dylan e ele fechou um, acendeu e passou a bola para os rapazes de Liverpool fumar.

 

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