7.1.07

Domingos


Quem é que me financia o tédio? Quem é que me subsidia o enfado domingueiro? Qualquer leitor de livros sabe que já tudo foi escrito, só que foi escrito ao contrário. A minha vida é cada vez mais um «0» desenhado do avesso. Lembro-me de Marcel Duchamp, nas entrevistas com Pierre Cabanne, a dizer: «Gosto muito mais de viver, de respirar, do que de trabalhar.» Eu também, sobretudo aos domingos. São terríveis estes domingos de resistência. Desistência? Há uma angústia que nos consome aos domingos, provavelmente é já a angústia das segundas-feiras. Um amigo, acabado de chegar de Nova Iorque, confirma a notícia. «É absolutamente asqueroso – diz-me - o que estão a vender nos States sobre a execução de Saddam! Na quarta-feira já se viam esferográficas, caricaturas, forcas-esculturas (pequenas) com o rosto do indivíduo, bonecos e umas caixas verticais, douradas mas pretas no interior com uma minúscula foto do enforcamento.... Enfim, uma ejaculação social, cultural e política de grunhos!... perigosos!» Sim, ao menos nós somos inofensivos. Grunhos, mas inofensivos. Mas a política nunca me interessou verdadeiramente. E Saddam não foi executado, tudo não passou de uma encenação. Saddam governa os States disfarçado de Bush. Não me interessa. «Além do mais, quando venho aqui, é com a ideia de descansar. Descansar de nada, pois estou sempre cansado, até mesmo de viver.» Eu também, caro Duchamp, sobretudo aos domingos.

2 Comments:

At 10:53 da tarde, Blogger etanol said...

Esta Mona Lisa é parecida com o pai - é careca? Aos Domingos ensaio, dia do senhor, canto mas só começo no próximo. Hoje segui o exemplo da lua, pratiquei a preguiça com requinte.
Maria João

 
At 4:12 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Belo texto.

 

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