23.1.07

Perguntar ofende? #2

No post anterior abordei as questões que Christian Boltanski formula através da sua actividade artística, ao penetrar na esfera privada das memórias históricas e colectivas, nomeadamente, se cada ser humano poderá ser um potencial criminoso. O artista ao colocar esta questão sabe que vive num mundo onde já não se acredita numa humanidade melhor, onde as utopias políticas morreram e apresenta-nos as utopias de aproximação como uma possível esperança: não podemos mudar o mundo, mas podemos reagir à nossa volta, aí sem ir mais longe. A questão que vou colocar neste post é também um pouco dolorosa: será que o acesso ao conhecimento, à arte e à cultura poderá tornar os seres humanos melhores? Sem dúvida que quem tem acesso à cultura é mais consciente ou terá mais responsabilidades perante o mundo; mas será que alguém é melhor só porque é culto e sapiente? Um criminoso não poderá ser também culto e sapiente? Christian Boltanski questiona-se e questiona-nos ao inventariar e mostrar fotografias da vida familiar dos SS. Eu coloco-vos esta questão a partir de um facto histórico sobre o qual diversos autores reflectiram com seriedade, porque por mais que se questione, talvez não haja nenhuma justificação para ele. A pergunta é: como foi possível a presença da música nos campos de concentração?
Na realidade, os SS para além de terem afectos, também amavam a música. Michel Schneider aborda este tema em “Musique de Nuit” - Editions Odile, Paris – livro que dedicou a Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler, que dirigiu uma orquestra feminina em Birkenau e morreu em Auschwitz em 1944. No livro relata-nos que Alma Rosé foi descrita por um sobrevivente do Holocausto, como alguém que não vivia neste mundo, que criou uma orquestra composta por raparigas que tocavam apenas há dois ou três anos e davam concertos todos os Domingos; o nível de qualidade da sua orquestra melhorou de dia para dia, segundo o depoimento, porque Alma Rosé vivia numa espécie de transe musical, trabalhando obsessivamente, tentando assim ignorar o que se passava à sua volta, mas sofria de insónias à noite. Será que Alma Rosé acreditava que a música poderia tornar os seres humanos melhores, mesmo aqueles monstros no campo de concentração? Será que a sua obsessão em trabalhar com a orquestra de forma a melhorar a qualidade dos concertos, era um acto de sobrevivência ou de fé? Nunca o saberemos; sabemos apenas que se algum SS se ria ou fazia um julgamento durante uma actuação, ela parava a música, dizendo que não se podia tocar naquelas condições e nunca foi punida por isso. O comandante deste campo de concentração, Josef Kramer, era um grande amante de música, tocava piano e o seu compositor favorito era Schumann. Sabe-se também que o Dr. Mengele era um profundo melómano, apesar das atrocidades que cometeu. Em Auschwitz, as autoridades ofereciam música de câmara, Jazz, de variedades e aos domingos à tarde havia concertos com aberturas de operetas e música ligeira, como se o campo de concentração fosse uma vulgar vila alemã. A música era interpretada por uma orquestra de prisioneiros, dirigida por Simon Laks, músico polaco que sobreviveu ao holocausto e publicou as suas memórias em 1948. Simon Laks começou por ser violinista nesta orquestra, depois copista de partituras e finalmente maestro. Segundo Michel Schneider, Simon Laks teve de inventar orquestrações especiais para que fosse possível tocar qualquer peça, apesar das ausências na orquestra, nas partituras existiam assim as notas dos temas mais importantes dos solistas. Os músicos também morreram em Auschwitz, poderiam sobreviver mais tempo que os outros prisioneiros, mas também morriam. Os outros artistas ou os poetas não tinham a mesma sorte que os músicos. A música é da ordem do invisível, a arte mais imaterial e espiritual de todas, uma linguagem universal que invade e atravessa os corpos dos seres humanos, instalando-se na intimidade, uma linguagem abstracta onde apenas os títulos são portadores de conteúdo, não os sons, e que não possui referente na realidade; talvez por isso, a música é a arte que mais se aproxima do bem, da justiça ou da verdade. Então, como foi possível a música estar presente nos campos da morte? Porque é que foi a única expressão artística no meio do horror? Como foi possível Josef Kramer, em Birknau, matar dezenas de pessoas num dia e tocar Schumann no piano a seguir? Poderá qualquer amante de música ser um criminoso?

Maria João

6 Comments:

At 1:14 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"Um criminoso não poderá ser também culto e sapiente?"
Alguns criminosos nazis podiam ser moderadamente cultos; mas sapientes não. Isso é mais que óbvio. E a cultura serve muitas vezes para objectualizar e estetizar tudo, incluindo o sofrimento dos outros seres humanos; ou para negar a realidade. Daí que não veja grande contradição entre cultura e crueldade. Mas entre crueldade deliberada e sapiência (independentemente do que metamos dentro deste conceito) não vejo grandes pontos de contacto.
E a música parece-me particularmente propícia ao doce engano dos sentidos de que um torcionário necessita para, à noite, esquecer o fardo psicológico que implica matar e torturar pessoas (que um homem não é de ferro e até um Goebbels precisa de acreditar, por vezes, que há dentro de si uma alma sensível).
jms

 
At 8:30 da tarde, Blogger etanol said...

Obrigada pelas tuas palavras, jms, certa música talvez seja uma réstia de humanidade nos criminosos, aquelaque passa por uma iniciação silenciosa- e porque não em todos nós? concordo contigo quando separas a crueldade deliberada da sapiência. Sim, e a cultura serve para objectualizar e estetizar, como o faz a cultura ligada ao entertenimento. A música também anda nos elevadores, nos centros comerciais, nos supermercados, no metro, o metro agora tem ecrãs de tv com anuncios, as televisões estão aos berros nos cafés etc... uma negação da realidade, talvez.
Maria João

 
At 10:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

em primeiro lugar quero agradecer-te estes posts...

um criminoso pode ter, e isso prova-se no teu texto, uma aproximação forte com a beleza, com a arte, pode até comever-se ouvindo schumann, mahler, o que seja... o que eu acho é que existe um dado que anda não foi introduzido nesta conversa, nem no primeiro post, nem neste, e que se prende com a noção de poder...

quando alguém goza de uma posição de poder, em que as suas acções vão definitivamente ter consequência sobre outrem, esse alguém perde completamente a noção de liberdade... fica escravo de si mesmo, absorvido por tudo de bom e de mau que preenche a sua mente... perdendo a liberdade, escravizada pelo poder, essa pessoa decidirá por si só o que é belo e o que não é, o que é válido e o que não é. o outro não existe nas suas opções, não há qualquer tipo de ética inter-humana e tudo é jogado no campo dos impulsos e das emoções; não havendo liberdade não há, nem poderá existir qualquer tipo de equilibrio, portanto factos como os que relatas parecem absurdos e incompatíveis.

respondendo especificamente a uma das tuas perguntas: "Como foi possível Josef Kramer, em Birknau, matar dezenas de pessoas num dia e tocar Schumann no piano a seguir?"

foi possível porque tinha PODER para isso (não confundir com ter LIBERDADE para isso)

um beijo e mais uma vez obrigado por estas conversas

 
At 12:54 da manhã, Blogger etanol said...

Olá Vítor, já tinha saudades das tuas palavras por cá, são estimadas e sempre benvindas. Tens razão, ainda não abordei a questão do poder, uma questão delicada. tenho de pensar como o vou questionar.Acho que já me destes umas pistas.
Maria João

 
At 6:07 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Maria João, não sei se não será ainda a mesma pergunta. Desconfio que sim. Necessária uma cultura de paz, de cooperação, de reconhecimento do outro, para que as coisas mudem. Mas são perguntas necessárias, inquietantes, que importa levantar.

Abraço

Luís

 
At 7:06 da tarde, Blogger etanol said...

É verdade Luís, mas por vezes é dificil que isso aconteça, a cooperação, o reconhecimento do outro no dia-a-dia, no mundo do trabalho. Porque são poucas as pessoas que entendem que ser simpático, afavel é um modo de melhorar a qualidade de vida no dia-a-dia. E se formos simpáticos e afaveis somos tratados como otários!
Maria João

 

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