7.1.07

Pode um criminoso ser recuperável?

Alguns defensores da pena de morte, ainda que de forma manca, costumam defendê-la na base de um princípio de justiça, no mínimo, duvidoso. Dizem que em alguns casos a pena de morte se justificaria por existirem pessoas irrecuperáveis. Este princípio é duvidoso por várias razões, a primeira das quais é a de uma fé na dedução que, em última instância, dificilmente escapará a futurologias sem sentido. O que é uma pessoa irrecuperável? E uma recuperável? Dizer que uma pessoa é irrecuperável é argumento tão ridículo como defender que um bebé indesejado não poderá vir a ser feliz. Por que são estas afirmações ridículas? Pela futurologia intrínseca, obviamente, mas por omitirem à partida o essencial: quer a felicidade quer a sociabilidade não são inatas. Um homem não nasce só no mundo. O que ele é resulta das circunstâncias que influenciam aquilo em que se torna. Não acredito que Hitler tenha nascido a odiar judeus, ainda que a imagem de um Hitler em choro inflamado dentro de um berço não me seja de todo inimaginável. Desde logo, sou contra a pena de morte porque nenhum homem pode ser considerado o único culpado daquilo em que se torna, ou seja, porque o homem é um ser social; mas também porque não consigo vislumbrar na pena de morte qualquer tipo de justiça. A pena de morte é um exercício de poder motivado pela vingança. Não se faz justiça com exercícios de poder, assassinando um assassino, sendo, em muitos casos, um alívio para o mesmo privarem-no da vida. Há pessoas que cometem actos horríveis, ordenam crimes hediondos. A relação dessas pessoas com a morte não é a mesma, não pode ser, de um cidadão comum. Daí que frequentemente essas pessoas se suicidem antes de serem capturadas ou julgadas. Tirar-lhes a vida pode satisfazer os apelos sádicos da assistência, mas jamais fará justiça às vítimas.

4 Comments:

At 1:44 da manhã, Anonymous Anónimo said...

"they say alcoholics are always alcoholics
even if they're dry as my lips for years...even if they stand on a small desert Island
with no place in two thousand miles to buy beer"
É qualquer coisa assim parecida, é da Ani di Franco, uma cantautora Norte americana conhecida por "agitar" consciências apagadas!
Acima de tudo, conhecida (e admirada por mim) por tratar nas suas canções do género humano.
Somos horrendos e nunca aprendemos com os nossos erros, principalmente quando há poder e dinheiro e petróleo, e muitas consciências pesadas pelo caminho. GEneralizamos e padronizamos só porque dá geito a alguns, invariavelmente aos mais fortes e mais horrendos do grupo do humanos .
P.S: já não se ensina Proust nas escolas?
Também para quê?
se desensinamos tudo com a tv e com os jornais...
Óptima reflexão.

 
At 12:03 da tarde, Blogger Insignificante said...

Também eu não vislumbro qq tipo de justiça na sentença de morte de um condenado. No entanto, partilho a ideia de que há de facto 'pessoas irrecuperáveis',estado que não é obviamente geneticamente determinado, mas resulta de uma multitude de factores bio-psico-sociais , não raras vezes bastante precoces. Esta 'minha' crença foi em larga escala determinada pela formação que tive e que me leva a distinguir doentes (que revelam psicopatologias)- ditos 'recuperáveis'- daqueles que apresentam perturbações graves de personalidade (psicopatias) - os tais 'irrecuperáveis' , mas que ainda assim, em caso de práticas criminosas, merecem ser justamente julgados,e condenados com penas que reflictam precisamente um maior 'equilíbrio' por parte de quem julga

 
At 5:35 da tarde, Blogger etanol said...

também sou contra a pena de morte.

 
At 6:11 da tarde, Anonymous César Figueira said...

Normalmente um dos maior argumentos a favor da pena de morte é a questão económica: condená-los à morte sai mais barato aos contribuintes.

Mas concordo, a abolição da pena de morte é uma indiscutível evolução da civilização.

 

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