26.3.07

PALIMPSESTO

A Antonio Carlos Secchin

Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
«Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto.»
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.

Ivan Junqueira

Ivan Junqueira nasceu no Rio de Janeiro a 3 de Novembro de 1934. Estudou Medicina e Filosofia, nunca chegando a concluir qualquer curso. Dedicou-se ao jornalismo, escrevendo para jornais diversos. Foi assessor de imprensa e depois director do Centro de Informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro, tornando-se mais tarde supervisor editorial da Editora Expressão e Cultura e director do Núcleo Editorial da UERJ, além de colaborador em várias enciclopédias. Poeta, ensaísta, editor e crítico literário, publicou o seu primeiro livro de poesia, Os mortos, em 1964. Recebeu vários prémios literários e está traduzido para o espanhol, alemão, francês, inglês, italiano, dinamarquês, russo e chinês. »

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