7.4.07

LEITURA

Havia luz em uns instantes surgidos
Na minha vida,
Que a mesma vida apagava.
E a pobre realidade
Era uma cinza…
…Já nada me recordava
Se, de entre ela, uma faúlha
Não me queimasse os sentidos.

O fogo das queimaduras
É dor que nunca me passa!
E é esta que me ressurge
Um pouco dessa luz-alma
De tantos momentos idos…

A inquieta luz, sempre de agora,
Que ao mundo nada desvenda,
A mim diz certa verdade,
A chã naturalidade
Nas coisas vãs da legenda.

Talvez ninguém me acredite,
E se ria,
Quando grave eu me recite.
Mas recitar-me, cantar,
Mesmo cansada a memória,
Teria de acontecer:
É comigo,
Bem viva enquanto eu viver
A minha inútil história.

Edmundo de Bettencourt

Edmundo Bettencourt nasceu no Funchal em 1889. Partiu para Coimbra, onde estudou Direito, exercendo posteriormente funções públicas em Lisboa. Foi um dos fundadores da Presença - Folha de arte e crítica, em 1927. Em 1930 publicou O Momento e a Legenda, a sua primeira e solitária obra em mais de trinta anos, ao mesmo tempo que abandonava, juntamente com Branquinho da Fonseca e Miguel Torga, o movimento da Presença. Só em 1964 viria a publicar Os Poemas de Edmundo de Bettencourt, com um estudo de Herberto Helder. Também conhecido como compositor e intérprete de fados e canções de Coimbra - José Afonso considerou-o o maior cantor de sempre do fado de Coimbra -, Edmundo de Bettencourt morreu em Lisboa em 1973.

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