22.4.07

O preço estipulado

Fiquei hoje a saber que o meu pai foi preso pela PIDE antes do 25 de Abril de 1974. Esta extraordinária revelação não só me encheu de orgulho como me fez sentir ainda mais filho da revolução. O problema é que, perante a insistência, fiquei a saber dos motivos da detenção: vender uma sandes a 25 tostões quando o preço estipulado não era esse. Teve azar, apanhou um PIDE ao balcão que o levou para o posto da guarda onde pernoitou duas noites. O meu pai, hoje em dia aquilo a que se pode chamar um comerciante de sucesso, foi preso por vender uma sandes a 25 tostões. O preço estipulado não era esse.
P.S.: Falta um pormenor. Durante a discussão com o PIDE, ele disse à frente de toda a gente que ali estava: «Quero lá saber do Salazar!»

10 Comments:

At 11:53 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Pois o meu pai, já falecido, também foi preso e interrogado pela PIDE, por estar a abrir, inocentemente, na via pública, um jornal "subversivo", que lhe tinham metido debaixo da porta - à época nem todas as casas tinham o "luxo" da caixa do correio-. Ficou lá 2 dias até os abutres se convencerem que ele não era um perigoso comunista.

 
At 1:23 da manhã, Anonymous antonio pedro ribeiro said...

isso é CORAGEM.

 
At 10:42 da manhã, Anonymous hmbf said...

Vida Involuntária, está visto que ambos temos sangue de terríveis agitadores.

António Pedro Ribeiro, por coragem, ingenuidade ou outra coisa qualquer, o que é certo é que ambos ficaram duas noites na choldra.

Agora equacionem isto com o discurso de uns pulidos valentes de quinta categoria que para aí há a defenderem três museus para o saloio de santa comba. Não há tomates que aguentem!

 
At 1:03 da tarde, Blogger AMC said...

Tal pai, tal filho...
O meu não teve essa felicidade, teve um pai perfilhador de algumas das ideias do regime, que, podendo, não mexeu uma palha para o livrar do ultramar.
O meu pai combateu como Alferes no Leste de Angola durante dois anos.
Precisamente no dia que o meu pai embarcou para combater em Angola, a minha avó sofreu a primeira de 3 tromboses que a deixaram progressivamente inválida até 1973, ano em que faleceu e o meu avô perdeu a sua razão de viver (tinha eu um ano).
Abraço

 
At 1:26 da tarde, Anonymous Anónimo said...

O meu pai não foi preso, aliás até fez parte da mocidade portuguesa, mas apenas para disfarçar, porque o meu avô era tipógrafo e fazia o jornal Avante, que escondia nos sitios mais incríveis do corpo para conseguir passar aos outros. Esteve preso 3 vezes e levou muitas tareias, na prisão conheceu o Mário Soares de quem o meu avô contava uma estória muito gira. Um dia peguntava o bochechas aos companheiros de cela o que faziam, quando o Silvano Paiva, meu avô, lhe disse que era tipógrafo, este respondeu-lhe, Sr. Silvano quando eu for presidente da república vai ter uma tipografia maior que a imprensa nacional. O meu avô passou os últimos 10 anos de vida a viver comigo e com a minha família porque tinha 26 contos de reforma e nunca teve tipografia nenhuma, mas também nunca lhe foi pedir e fez muito bem.
Nelson Paiva

 
At 11:54 da tarde, Anonymous Eduardo Barrento said...

É mesmo caso para orgulho!
E, de facto, não dá para aguentar esta gente que quer gastar o dinheiro dos nossos impostos a glorificar um dos grandes causadores (se não mesmo o maior)do nosso atraso (não só económico, como cultural...). Como dizia alguém, até no ditador tivemos azar.

 
At 5:11 da tarde, Blogger etanol said...

O meu bisavo era um mason republicano, cortou relações com o meu avô que era pró-regime, o meu pai nunca se meteu em politica e convivia harmoniozamente com o meu bisavô, nunca foi preso, mas quando o meu irmão resolveu pela primeira vez arrumar-lhe a biblioteca, isso deve ter sido à mais de 25 anos, descobriu uma segunda fila de livros bem escondidos com todo o tipo de publicações poribidas, que originou uma grande risada entre os filhos, porque até lá estava o livro vermelho do Mao em italiano!
:DDDD
Maria João

 
At 6:16 da tarde, Anonymous asdrubal said...

Pais e a ditadura...
Pois o meu teve de emigrar para não ir lutar para àfrica por um regime que o matava à fome.
Nunca me explicou se fugia da guerra ou da fome. Acho que fugiu da fome. Afinal tinha 16 anos. Quando estes trastes de cabeça rapada ou viscondes do cócó glorificam Salazar, gostava que passassem fome para depois ver se ainda eram salazaristas

 
At 11:42 da manhã, Blogger inBluesY said...

existem demasiadas histórias perdidas, de muitos que mesmo pouco deram tudo para o dia chegar.

pese hoje, o teatro ser outro, distante.

 
At 10:39 da tarde, Blogger Marta Mel said...

Olá a todos o meu pai de nome Henrique foi preso pela pide durante oito anos meu pai é angolano "mulato claro" como se diz... e deixou-lhe marcas fortes até hoje e graças à pide que a minha infancia e de meus irmãos foi uma bela...obg pide por tudo.

 

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