28.6.07

HEY JOE

O homem do momento é José Berardo. Toda a gente tem algo para dizer ou escrever sobre José Berardo. Tiago Barbosa Ribeiro é implacável no perfil traçado daquele a quem chama palhaço alegre: «A excentricidade daquele homem tem um nome: parolice. O título de comendador, por exemplo, é todo um programa utilizado no velho Portugal para um vislumbre de ascensão social que possa ser usado nos cheques à falta de qualquer outro título. Chamar-lhe «mecenas», pelos deuses, chega a ser chocante. Este homem tem uma sede de protagonismo inversamente proporcional à sua educação e não é, nem nunca será, um apoiante da arte. José Berardo ('Joe' a que propósito?) ganhou os seus preciosos euros deitando-se com o brutal círculo de poder que impunha a segregação racial na África do Sul -- país de onde foi depois expulso por pilhar recursos naturais para a sua casa na Madeira -- e não é expectável que os indígenas possam a aceder à profilaxia de alguém que começou a coleccionar arte como quem acumula caricas.»

11 Comments:

At 6:55 da tarde, Blogger LB said...

Acho criticável o facto de ter enriquecido com especulação ou de formas pouco éticas. Mas acho algo pedante criticarem-lhe a parolice.

Berardo também é um especulador e vê a colecção de arte como um investimento, o que é normal. Os melhores clientes do muralista comunista Diego Rivera chegaram a ser bancos e afins. Os patronos da arte, da música à escultura, passando pela pintura, sempre foram pessoas com demasiado dinheiro para gastar, desde a Igreja e a sua arte sacra caríssima com pobres a morrer à fome, a Reis tirânicos apaixonados por belos objectos como quadros e estátuas... Se não fossem estes homens e entidades desejosas de possuir e arrecadar o tesouro que é o trabalho do génio do homem, o que seria das artes plásticas?

De facto, o erudito e hábil Mega Ferreira é diferente. Mas entre um e outro... :)

 
At 7:59 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

lb,

Plenamente de acordo. Basta lembrarmo-nos dos Bórgias, do papa Leão X - o esplendoroso Vaticano também auferiu impostos das prostitutas de Roma - e de tantos outros exemplos. Nada há na actividade humana, da política à arte, bacteriologicamente puro.

Mas o "comendadorismo", não deixa de ser cómico. Faz-me imensamente lembrar -guardando as mudanças no vestuário e na evolução "técnica" de que usufruimos - aquela fase crítico/realista do Camilo: "A Corja"; "Eusébio Macário"; "A brasileira de Parzins";"A Queda de um Anjo".
Afinal, não mudámos assim tanto...

 
At 10:03 da tarde, Anonymous Eduardo Barrento said...

Concordo em parte com os dois comentários anteriores: sem dúvida que a arte não seria o que é hj se não fossem esses endinheirados.

Mas não será também isso que mata a arte?

Contradição das contradições (e não é da contradição que a arte vive?) o que lhe dá força, também a mata. Ou não será obsceno que um quadro valha milhões?

E o que muitos artistas não fazem, não em nome da arte, mas em nome do negócio?...

 
At 4:10 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Começo pelo prefixo "ob",(do obsceno) que, dizia a minha prof. de Latim, já vinha do indo-europeu e que indicava obstáculo - e cá está o "ob"..
Obsceno será tudo que não deve ser mostrado, que deve ser fortemente reprimido. E aqui, não será que a arte, enquanto expressão e representação se está borrifando para essas categorias obstaculizantes?

Outra ordem de factores será o mercantilismo. E aí todo o charlatanismo e expedientes é possível, mesmo da parte de algum "sacrossanto" artista.

Mas, o que ainda é mais horrendo é saber quanto valem hoje um Van Gogh ou um Modigliani e ter sabido da penúria total em que eles morreram.
Eles e tantos outros e outras.

Além de que, uma coisa é coleccionar por gosto e paixão artística. Outra por questões de investimento financeiro.Que até poderão coexistir. A contradição (ou oposição) é sim inerente à arte, porque ela é inerente ao Cosmos que se "conhece": força centrípta e centrifuga, calor e frio,fogo e água e tantos outros edecetras.

Boa madrugada!

 
At 7:30 da manhã, Blogger GAF said...

Entre Joe e Mega não tomaria partido. No meio disto, a arte não tem nada a ver. Os maiores ataques contra Joe que tenho lido são mais parolos do que ele: acusam-no de ser do Benfica, de ser rico e de ser «directo». É directo, é verdade, teve a coragem de enfrentar o erudito e o maquiavel da banalidade Mega. A memória é curta, eu sei, mas Joe lembrou-se da maneira como o grande Mega se promoveu parolamente na televisão expondo a sua doença grave, qual Ágata mãe solteira que também queria parir lá, na televisão. Uma coisa é certa, ambos são muito batidos nisso das cunhas e das influências, e defender um ou outro não garante tacho a nenhum bloguista (acabo de deslincar um que se batia ao tacho alarvemente). São duas moscas da mesma poia, Mega e Joe, estão condenados a entender-se, a ministra é que sabe.
Quanto à arte (e trata-se aqui de arte moderna), numa época em que se discute o que é arte e o que não é arte, são os incultos joes e megas, ou os seus agentes, quem decide o que é arte e quantos euros vale. Os pintores e os escultores é que sabem o que é arte, mas têm de se sujeitar à vontade dos patrões.

 
At 11:17 da manhã, Anonymous Sissi said...

Uns criam.
Outros teorizam.
Outros têm dinheiro para comprar as obras. Por gosto, por entender o artista, por reconhecer razão ao critico, por uso de um faro comercial apurado ou simplesmente para diversificar a colecção de caricas? Tanto faz.Há aqui uma pescadinha de rabo na boca tão velha!

 
At 11:22 da manhã, Blogger LB said...

Eu acredito que quando uma obra de arte como uma pintura está publicamente disponível num museu e reproduzida fielmente em belíssimas edições da Taschen (baratas e boas), a obra cumpre o seu papel, torna-se tão de todos como é a literatura (o objecto democrático mais perfeito e justo que consigo conceber).
Posso viver com o facto de alguém ou de um país ou de uma igreja dizer «este quadro é meu, porque eu paguei por ele». Desde que nos deixem ver o quadro em boas condições e preços acessíveis, essa posse é tão simbólica como o próprio valor do dinheiro que se paga por ele. O único direito que essa posse dá, teóricamente, é esconder o quadro numa sala lá de casa, para as visitas, ou destruí-lo num acesso de loucura. E esse propósito Gogol tem um conto fabuloso chamado O Retrato...

 
At 1:05 da manhã, Blogger Ultraperiférico said...

Alguns falam, falam, falam, outros fazem. Mas Berardo foi o único português, até ao momento, que teve a ousadia de ir tão longe no campo da aquisição de obras de arte. Não há nada que pague essa ousadia e o que ela traz de enriquecimento colectivo. Como de costume desdenha-se de quem se destaca pela ousadia. É lamentável.
[Roteia]

 
At 8:03 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Hoje, 30 de Junho, ainda não há qualuer referência ao novo Museu Colecção Berardo, no site do CCB.
gaf

 
At 10:49 da manhã, Anonymous Sissi said...

O site do Centro Cultural Berardo ainda não actualizou as bandeiras?
Demissão à vista!!!!!!!!!!

 
At 1:47 da tarde, Anonymous hmbf said...

Há aqui vários planos que não devem ser misturados. O mecenato é coisa boa, coleccionar arte também, dar de comer aos artistas é do melhor. Não é isso que está em questão. Quanto a mim, estou-me nas tintas para a arte e para os artistas e para os museus se a sua existência não for dissociável da exploração de carne humana. Não sei qual foi a vida de Joe. Mas se a vida de Joe foi, como diz TBR, deitar-se «com o brutal círculo de poder que impunha a segregação racial na África do Sul -- país de onde foi depois expulso por pilhar recursos naturais para a sua casa na Madeira --», então "a vida de Joe" repugna-me. Não é o comprar obras de arte que lhe vai lavar as mãos. Aliás, isso, para ele, é só mais um negócio.

 

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