28.8.07

DINÂMICA COLECTIVA

Para que haja dinâmica colectiva é preciso haver, antes de mais, um colectivo. A heteronímia pode, de certa maneira, ser considerada um colectivo de tipo psicológico. Deste modo, havendo heteronímia torna-se possível haver um certo tipo de dinâmica colectiva. Alguém que dentro de si permita a existência de múltiplas personalidades deverá, em nome da integração social, ser colectivamente dinâmico no imo da sua multiplicidade egóica. Caso contrário, arrisca-se a uma desfragmentação do ego com consequências previsivelmente catastróficas para si e para os seus. Mas isto em termos psíquicos, porque em termos extrapsíquicos a questão da dinâmica colectiva torna-se deveras complexa. Basta imaginarmos uma relação entre dois seres afectados pelo multipersonalismo. Se as relações entre dois indivíduos de personalidade consolidada no prisma da unicidade já são complexas, facilmente imaginaremos o que possa suceder no caso de ambos os indivíduos possuírem tendência para as personalidades várias (uma espécie de heteronímia concreta com repercussões ao nível da ambiguidade dos comportamentos). Muitas vezes não sabemos o que esperar daqueles que julgamos conhecer bem, pior se tivermos de esperar alguma coisa de alguém que conhecemos mal. Mas pior ainda é o género de expectativas geradas relativamente a quem desconhecemos por completo, não por distância relacional mas tão-somente por esse alguém ser a toda hora outro alguém que não o próprio. Como lograr alguma dinâmica colectiva entre dois seres que são sempre outra coisa que não aquilo que eram ou foram, eis o nosso problema. Porque, nessas pessoas que mudam de personalidade como quem pisca os olhos, há o ónus do caos, do acaso, da imprevisibilidade. Como sabeis, só quando há previsibilidade é que se justifica esperar alguma dinâmica colectiva. A solução para o problema seria uma conversão à inactividade hindu, ao nirvana, à abdicação, à entrega do ser ao ser. Não é solução fácil, como fácil sói não ser a vida que vive do ar que se respira. O silêncio também parece não funcionar. Isto porque sobre o silêncio paira sempre a nuvem da desconfiança, do temor, do medo, do receio de se estar a ser preterido, voluntariamente desprezado e excluído. Entre duas pessoas com múltiplas personalidades nada há pior que o silêncio. Podem imaginar isto se conseguirem imaginar uma estação do metropolitano, em hora de ponta, mergulhada na cegasurdamudidade do silêncio. Que fazer? A única solução visível é falar com essa pessoa como se estivéssemos a falar com uma turma inteira, esperando que, da pessoa em causa, surja a mesma atitude para connosco. Apenas esta condição poderá estabelecer alguma dinâmica colectiva entre dois seres que, a cada instante que passa, são já uma outra coisa. Falar para alguém como se se falasse para uma plateia de gente é, senão igual, pelo menos parecido ao que fazem os homens e as mulheres de sucesso na sociedade em que vivemos. É com esses homens e com essas mulheres que Deus quer, os homens sonham e a obra nasce. Talvez isso se explique pelo facto de vivermos em sociedades muito propícias ao multipersonalismo e à heteronímia, o que, em abono da verdade, se justifica pela propagação dos métodos intercomunicacionais cibernéticos. Mas o que importa aqui sublinhar é o sucesso do tom. Sintonizar correctamente o tom, falar, gesticular, andar, como se, a toda a hora, estivéssemos a comunicar para uma plateia imensa de indivíduos. No fundo, falar como se estivéssemos a conferenciar. Em certas situações, é tudo isto assaz satisfatório. Pois permite-nos transformar a mais banal performance sexual numa autêntica orgia de sabores.

Adenda: Em adenda à Dinâmica Colectiva, deixo verso de Silva Carvalho:

Digo para mim mesmo: aguenta!

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