7.10.07

Era quase de certeza padeiro ou moleiro de um moinho antigo, pois só os padeiros e moleiros possuem velhice tão veloz e tão branca. Trazia consigo uma criada negra como uma dívida de luar, e ao peito, alguém, ou ele próprio, havia colocado um calendário das cores do fogo. E por cada cor diferente aflorava-lhe ao pescoço uma pérola nua e tímida, que por entre os cabelos de uma paciência infindável que possuía, cheias de pejo, se escondiam. Nunca na vida cortara o cabelo. Falava com ele de seres mutantes e distraía-se no eco das palavras que pronunciavam seres imutáveis. Sempre que alguém o via sentado, uma das suas mãos descansava sobre as pernas um delírio de acenos, enquanto a outra levantava à altura dos olhos esta espécie de êxtase imprevisível que é o presente. Não raro assim adormecia…

Eduarda Tavares

Eduarda Tavares nasceu em 1965, em São Miguel, Açores. Estudou Psicologia. Em 1988 foi-lhe atribuída uma menção honrosa no Prémio de Poesia Prof. Abel Salazar, do Porto, e em 1989 obteve o 1.º lugar do Prémio de Poesia «Literatura e Desenvolvimento», com o livro Sono Derramado (Camino, 1992).

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