4.12.07

FIGURE IN OPEN DOORWAY

Bacon

Todo eu sou uma página não encontrada, sei-o. Escusavas de o miar sempre que te afago o pêlo. Porque então pareces um erro. Se permites que te afague o pêlo, não deves miar os meus defeitos. Ficas muito semelhante aos meus defeitos, não saberemos mais quem é quem, e tu assim sempre às escondidas pareces um erro a miar páginas em branco. As florestas crescidas do meu corpo não são para esconder armários, muito menos esqueletos. Podemos sempre deixar lá guardadas as fotografias antigas, meninas de saia rodada e sardas no rosto perdidas nos ventos sombrios das árvores, podemos andar à caça de veados nas florestas crescidas do meu corpo, embora nada seja mais inútil que tal género de caça. Se o alimento que procuras é motivo de alarme, então busca o alimento nas cores do universo. Não o busques em mim, que eu sou uma página não encontrada. Ninguém que seja esperto procura alimento nas páginas perdidas, deixa-me a sós com o meu esquecimento, dispenso a tua memória errática, os teus elogios fúnebres. Para que me serve um beijo sem cuspo? Para que me serve um abraço sem peito? Para nada serve nem para nada serviria fosse minha vontade que alguma coisa me servisse, o que me serve é apenas o rodado das bicicletas, a imagem arcaica de um velho repetindo os caminhos diários, como um hábito, só para trazer aos gatos o alimento desinteressado do amor. Porque aí sim temos amor, desse amor que não crês porque passas o tempo todo a ronronar os erros das páginas desencontradas. Tu não sabes ver para lá da tua miopia, ninguém te pode culpar disso. Só te podemos acusar essa presunção desmedida, essa ambição de riscar no branco a brancura, de passar a rega pela terra, por jamais ficares bem com a natureza das coisas. Convence-te, então, de que sou uma mera página não encontrada. Se puderes não voltes, saberei viver com a solidão da tua ausência. Se puderes, oferece-me o silêncio suficiente da tua indiferença. Nas florestas crescidas do meu corpo cabe sempre mais uma boca calada, o que já não cabe é esse miar insuportável sempre que te afago o pêlo.

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