23.1.08

Fragmento #58 – O Vinho

Morreu no passado domingo o Eng. Colaço do Rosário, após prolongada doença. Foi alguém com quem tive o privilégio de conviver, desde sempre, devido à amizade com a sua filha Teresa, minha colega na escola primária e amiga desde a infância. O Eng. Colaço do Rosário para mim sempre foi sinónimo de vinho, com ele e com a filha provei, aprendi a apreciar e conheci excelentes vinhos, partilhei experiências estéticas difíceis de descrever. Agora já não vou provar os seus novos vinhos, mas ele deixou escola, foi um dos responsáveis pela implementação de novas tecnologias na produção dos vinhos no Alentejo, de que é exemplo o trabalho pioneiro que realizou ao lado de Joaquim Bandeira (que também já não se encontra entre nós) até finais dos Anos 80 no antigo Esporão, foi também o enólogo responsável pelos vinhos da Fundação Eugénio de Almeida, produzindo verdadeiras obras de arte como o Cartuxa, Peramanca ou vinhos mais correntes e acessíveis de excelente qualidade como Foral de Évora ou os EA; deixou obra e escola, foi professor de Enologia na Universidade de Évora, mas os seus vinhos eram especiais e únicos. Lembro-me de uma prova informal que realizámos em sua casa, eu cheguei com alguns exemplares produzidos pelos meus tios em Vila Chã de Ourique (Quinta da Amoreira) e aprendi como se fazia uma prova a rigor: abrimos as garrafas, sentámo-nos à mesa, cada elemento tinha à sua frente um guia escrito com as regras. Começámos por discutir a cor do primeiro vinho, descrevendo-a e classificando-a, depois o aroma, depois tocávamos com os lábios no vinho suavemente e aspirávamos sem engolir – fiquei a saber que assim sentíamos o seu aroma no nosso interior – de seguida colocávamos um pouco de vinho na boca, sentindo o seu gosto, mas cuspíamos para uma taça e só no fim se podia provar engolindo. Em todos os passos do ritual atribuíamos notas, discutíamos, dávamos as nossas opiniões, o Tio Colaço dizia-me que tinha uma boa intuição para os tintos e de facto eu gosto muito mais de beber vinho tinto. Mas eu adorava os seus vinhos brancos, não me esqueço daqueles primeiros Cartuxa estagiados de madeira de carvalho, ou daqueles brancos do Esporão. Habitualmente, não bebo vinho branco, nem rosé. Mas com os rosés aconteceu-me algo ainda mais engraçado: há cerca de quatro ou cinco anos, combinei um jantar na minha casa com alguns amigos. Era uma tarde de verão muito quente, diria abrasadora e insuportável, chegou a Teresa com uma caixa de vinhos, com a boa disposição que a caracteriza e disse-me: trago aqui uns rosés do meu pai que são espectaculares. Eu feita tonta desconfiei, como sou adepta de tintos e alguns brancos, mandei uma boca do estilo isso deve ser refresco. A Teresa que é danada para a brincadeira colocou as garrafas no congelador e fomos preparando as coisas para a festa. Passado mais ou menos meia hora começaram a chegar os convidados e servimos o rosé fresquinho como aperitivo naquele fim de tarde ainda muito quente. A boa disposição a pouco e pouco tornou-se geral, as janelas na casa estavam abertas para o começo da noite um pouco mais fresca, o ar já circulava. Eu bebia o rosé como se fosse um refresco, era suave e muito agradável no primeiro impacto, mas de repente começo a ficar tonta de riso e lenta nos gestos, a frescura tinha chegado ao meu interior. Viro-me para a Teresa e digo-lhe: olha lá, este rosé não é tão suave como parece, acho que necessitamos todos de começar já a jantar. A Teresa ria-se à gargalhada e respondeu: então tu achas que o meu pai alguma vez iria fazer um rosé tipo refresco? Este vinho tem 13º!
OBRIGADA PELOS TEUS VINHOS, SERÃO SEMPRE UMA REFERÊNCIA NO MEU INTERIOR, GUARDO-OS NA ALMA!

Maria João

3 Comments:

At 10:37 da tarde, Blogger Luis Eme said...

O Tio Colaço deve ter adorado esta tua homenagem.

Mesmo sem o conhecer, apetece fazer-lhe um brinde...

 
At 12:29 da manhã, Blogger etanol said...

saúde em honra do eng. Colaço!
Maria João

 
At 1:45 da manhã, Anonymous Anónimo said...

A dimensão mágica não se explica. sente-se e ele sentia-a e faz-nos senti-la atravez dos seus vinhos.

 

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