21.1.08

OH, PAZ DO MEIO-DIA

em plena cidade, com os mais diversos
odores de comida na escada. As bicicletas
estão na entrada, fechadas, ao lado
do carro de bebé, não se ouve um som.

Os prospectos foram retirados das caixas
do correio e deitados fora. As caixas
estão vazias. Até a televisão foi desligada
pela família turca cuja janela da cozinha

dá para o saguão nas traseiras. Oiço
loiça, pratos e talheres, lá atrás
ficam os quintais, claros e frescos, numa luz
pálida de primavera. Por toda a parte as estranhas

histórias de uma vida normal sem
sobressaltos à quarta-feira, tal como hoje. O dia
existe, claro como chuva, sons trazidos pelo vento: oh, paz de
quarta-feira com cebolas sobre a mesa,

com tomates e alface.
Foram-se os planos e os vexames
e pensamos como é tranquila
a quarta-feira

Nuvens sobre o telhado, azuis, e
silêncio nos quartos, tranquilos e calmos e
tão abertos como alho francês, como verde é a salsa,
e como estão quentes as ervilhas.


Tradução de João Barrento.

Rolf Dieter Brinkmann

Rolf Dieter Brinkmann nasceu a 16 de Abril de 1940, em Vechta, na RFA. Começou a publicar poesia na década de 1960, tendo-se estreado com a colectânea Ihr nennt es Sprache (1962). Viveu de trabalhos vários e dedicou-se também à fotografia. Foi bolseiro em Roma e em Austin, tendo traduzido e organizado antologias de vários poetas norte-americanos. Além de poesia, publicou contos e o romance Keiner weiß mehr (1968). Faleceu em 1975, vítima de atropelamento, na cidade de Londres.

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