12.2.08

ESTAR CIENTE

Thomas Ruff, 2003.

Estou ciente de que pretendo continuar por ti adentro como uma larva rompendo a casca de uma maçã. Também estou ciente de que, por esta altura, já todas as maçãs foram trincadas, nenhum Deus se conformará com a sapiência dos homens e os ramos da árvore, de tão secos, servirão apenas para estender passarinhos cansados de voar. Há países onde investigam essas coisas, países onde se conclui o voo estatístico dos pássaros, grande rodagem, asitas pneumáticas, quilómetros e quilómetros de ar percorrido contra tudo e contra todos, só para aqui chegarem. Cansados. E pousarem nos ramos secos destas árvores. Estou bem ciente, crê, de que sempre que sonho contigo, com a tua boca sugando-me o caralho, é no corpo de outro homem que me vejo. Talvez a censura esteja aí, em ver-me sempre no corpo de outro homem, em pensar que um dia será possível ver-te de costas e confirmar todas as expectativas. Porque eu sei, quando te vejo de costas, que o teu rosto muda. Tu não sabes porque não vês. Mas eu estou perfeitamente consciente de que o teu rosto muda quando eu te vejo de costas. Podes perguntar-me como fica então o teu rosto? Posso dizer que fica tão suculento quão sequioso, desperto numa espécie de músculo distendido, mas assim como quem fecha os olhos enquanto degusta o sorvete. O teu rosto fica radical, e eu fico como se nunca o tivesse visto antes. Por isso estou ciente de que a censura está dentro de mim, que a censura é, deixa-me deformar o marquês, uma falta de hábito. Tu já reparaste quão ávidos somos na censura do que é belo? Censuramos as palavras, as imagens, os factos, até as ideias mais belas, pois temível é o mundo que coloque o belo à frente do nariz dos homens. A beleza cega, cega como um vírus contaminante, desvia os homens do essencial (do necessário?), provoca-lhes sensações inimigas do repasto, convoca-os sob a assinatura feroz de um sangue cálido e imparável. A censura é o que nos garante esse alimento insidioso da máquina social: o bom senso. E ela começa logo no alimento, pois como qualquer aparelho nós não cagamos senão o que comemos e não comemos senão o que cagamos. A única diferença está na forma como trituramos o alimento. E aí, repara, há várias formas de triturarmos o alimento. Diz quem sabe que, só para dar um exemplo, um belo corpo é sempre mais apetecível quando se mostra sombreado, sugerindo-se na transparência, saltando do decote, ou quando irrompe do tecido. Diz quem sabe que é debaixo desse nevoeiro que a nossa imaginação melhor atiça o desejo, melhor ateia o fogo instintivo da beleza: mensurável, como li num poeta que ora não lembro, na intensidade do tesão. Diz quem sabe que é assim. Na volta, somos apenas rendilhados na composição maquiavélica de um esquema que consiste em provocar-nos desejos, ânsias, inquietações, apetites, com o estigma da proibição. Mas eu não me conformo. Não me conformo que perante tal estigma o teu rosto me apareça assim, e que de costas voltadas tu não te assemelhes mais a uma torre em chamas, uma aldeia bombardeada, um edifício implodindo, corpos estilhaçados, quilómetros de campas onde dormem biliões de esqueletos perdidos para sempre durante um voo de uma ave migratória que, entre dois destinos, cumpre a sua existência. Só nunca hei-de entender porquê? Porquê tantas horas perdidas com recusas e providências cautelares?

1 Comments:

At 11:43 da tarde, Blogger etanol said...

chiça, com este thomaz ruff o insónia ainda vai ser censurado na blogosfera, epá o texto é de cortar à faca!

 

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