26.4.08

OS PACÓVIOS ARROGANTES

O lugar-comum de que as pessoas do campo são mais humildes e, por isso mesmo, mais simpáticas e prestáveis é um preconceito que apenas quem não vive no campo pode pretender sustentar. O campo está repleto de gente economicamente humilde e novos ricos que são, na mesma medida, moralmente arrogantes e estupidamente insensíveis, gente ignorante e iletrada mas radicalmente convencida da sua sapiência, a qual se fundamenta, invariavelmente, em meia dúzia de axiomas contraditórios e frases feitas ouvidas aos heróis da televisão (que tanto podem ser o Carlos Malato, a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro como o Fernando Rocha, o José Castelo Branco e o Cláudio Ramos). Estes heróis reproduzem ad nauseam essas mesmas frases feitas, estereótipos passados de geração em geração como se fossem verdades absolutas e inquestionáveis, aforismos com um farto valor persuasivo junto da massa acrítica que atravessa as orlas da sociedade inculta, inimiga da cultura e do saber, desdenhosa do estudo, da análise, da escola, etc. O tipo de pessoas a que me refiro faz destes heróis heróis precisamente por se rever na calculada simplicidade dos seus raciocínios. Ou então não há calculismo algum e os tais heróis são igualmente estúpidos por natureza. Mas o que considero mais deslumbrante nos campónios arrogantes é a presunção com que apontam o dedo aos forasteiros, a atitude discriminatória para com tudo o que manifeste diferença ou venha de fora, a forma ligeira como censuram putativas vaidades aos doutores e engenheiros que atravessem a rua lá da aldeia, topando-lhes narizes empinados onde, muitas vezes, há apenas carácter. Na realidade, muitas vezes, são eles, os campónios arrogantes, quem obstrui a integração dos demais. Por um qualquer complexo de inferioridade, julgam-se olhados com desdém. E é verdade que muitas vezes são olhados com desdém. Mas também é verdade que, muitas vezes, não merecem senão ser olhados com desdém. Disto tudo conclui-se apenas que a humildade não escolhe classes nem regiões, é fruto do carácter e da personalidade dos indivíduos, venham eles de onde vierem, sejam eles mais ou menos letrados.

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