26.4.08

MODAS



Não sou de modas, nunca fui, assim como também não cedo ao facilitismo das contramodas. Detesto citações obtusas, repetitivas, práticas de tucátulá, guitarras dedilhadas sempre ao mesmo ritmo, nas mesmas notas, como séries de quadros num museu poeirento. Prefiro o lado selvagem das florestas aos canteiros arrumados dos jardins. Quando morrer quero que me espalhem algures, para não ficar mecanicamente arrumado num cemitério geometricamente organizado. Ah! Como eu odeio a geometria do gosto, as leituras matemáticas, essa pseudocienciazinha a que chamam coerência. Não há coerência alguma em sermos rectos se do que fazemos queremos apenas o gosto da insurreição. Conheço muitos putos novos que são de modas, vestem as roupas de putas velhas que foram de modas, as quais, por sua vez, já haviam vestido os trapos dos ícones das modas entretanto seguidas como seguem as crias chocadas o seu progenitor. Eu quero é desnascer, sempre desnascer, rasgar os trapos, reinventar as fardas, seguir por trilhos onde, pelo menos, me seja dado o gozo de desbravar um pouco o matagal. Quero chegar ao fim do percurso com as pernas arranhadas pelas silvas, os braços mordidos pelos mosquitos, os pés sangrando de bolhas e muitas outras mordeduras. De outro modo, não valerá a pena. Preferível seria sentar-me defronte a um espelho a masturbar-me enquanto admiro, embevecidamente, a minha inigualável beleza. Ou então ficar à espera que alguém me masturbe, como, geralmente, fazem as putas velhas.

3 Comments:

At 12:16 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

(...)
"Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí.
Se eu nasci foi só para desbravar florestas virgens
e gravar meus próprios pés na areia inexplorada.
Tudo mais que eu faço, não vale nada.
Como pois sereis vós a dar-me machados, ferramentas e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós
e vós amais o que é fácil.
Eu amo o longe e a miragem
amo os abismos, as torrentes, os desertos.
Ide. Tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátrias, tendes tectos
E tendes regras e tratados e filósofos e sábios.
Eu amo a minha loucura.
Levanto-a como um facho a arder na
noite escura
e sinto sangue, espuma e cânticos nos lábios

(...)

Adivinha: Quem escreveu isto, há consideráveis anos?
Cito de cor.Fui impedida de dizer este poema, numa festa escolar,no
tempo do fascismo, apesar do autor, nem ser "revolucionário".

 
At 12:35 da manhã, Blogger hmbf said...

Essa é fácil. Trata-se de um clássico. E, não por acaso, é um dos poemas da minha sebenta particular. Um poeta não muito amado na actualidade, o Régio do «Cântico Negro» merecia outra memória.

 
At 8:39 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Havia uns discos de vinil, em que o João Vilaret, dizia poesia magistramente, inclusivé esse "Cântico Negro". Salvo erro "João Vilaret no São Luiz".Veja, sff, Henrique, se alguém se lembrou de o pôr no youtube. É um "disco pedido"(e perdido), que valia a pena re-ouvir.

 

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