9.4.08

Labirinto #18

“A geometria de Tlön compreende duas disciplinas um tanto diferentes: a visual e a táctil. A última corresponde à nossa e eles subordinam-na à primeira. A base da geometria visual é a superfície e não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam. A base da sua aritmética é a noção de números indefinidos. Acentuam a importância dos conceitos de maior e menor, que os nossos matemáticos simbolizam por > e por <. Afirmam que a operação de contar modifica as quantidades e as transforma de indefinidas em definidas. O facto de vários indivíduos que contam uma quantidade conseguirem um resultado igual, para os psicólogos é um exemplo de associação de ideias ou de bom exercício de memória. Já sabemos que em Tlön o sujeito do conhecimento é uno e eterno. Nos hábitos literários também é omnipotente a ideia de um sujeito único. É raro que os livros sejam assinados. Não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obras de um só autor, que é intemporal e é anónimo. A crítica costuma inventar autores: escolhe duas obras dissemelhantes – o Tao Te King e as 1001 Noites, digamos, - atribui-as a um mesmo escritor e a seguir determina com probidade a psicologia desse interessante homme de lettres…”

Jorge Luís Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, in “Ficções”, Ed. Teorema, pág. 23.

Maria João

2 Comments:

At 12:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"Borgues"?? Do verbo borgar?

 
At 2:40 da tarde, Blogger etanol said...

Borges mais do que borga é um flash!
;)
Maria João

 

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