7.4.08

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Mais tarde ou mais cedo, será demasiado tarde. Quem não nasceu com a sorte nos bolsos, esmorecerá sobre a terra como uma sombra envergonhada. Se no sangue lhe correr algum ódio, plantas maravilhosas florescerão da terra; se nos ossos alguma ferrugem houver, mais plantas maravilhosas florescerão; se amor for tudo o que aos músculos convém, garantido é que as mesmas flores desabrocharão. Porque as flores crescem a olhar o céu independentemente das lajes, da história enterrada debaixo das lajes, de tudo o que ficou por fazer. Então se dirá: lança uma pedra sobre o assunto. Mais tarde ou mais cedo, não chegaremos a tempo. É assim quando se nasce português, pior ainda quando se nasce no campo. No campo, nasce-se muito mais perto das plantas que florescem à hora da morte, nenhum caminho pode ser desbravado sem calos nos dedos, terra nas unhas, feridas nos pés. No campo toda a gente nasce a cheirar a suor, ao passo que nas cidades é o suor que nasce a cheirar a gente. Numa casa onde não há livros, onde a fome obriga a cavar fossos, onde os fossos mergulham no destino sem passado, presente ou futuro, os homens não podem dar-se ao luxo de pensar para lá dos bolsos. E com os bolsos rotos ninguém transporta areia, ninguém sobrevive ao azar, ninguém escapa à solidão. Há nesses bolsos rotos um turismo melancólico, uma certa forma de olhar o mundo à nossa volta. Com sorte, escapa-se por instantes à gravidade dos penedos. Um homem faz-se funcionário, prime carimbos, lambe envelopes, embrulha-se num correio azul e envia-se a si próprio para um apartado qualquer à espera de ser aberto, lido, afagado pelos olhos ensimesmados de quem lê. Embora quem leia desconheça os segredos dos pombos, não faça sopa dos ninhos, não mate a fome com amoras, caracóis, o sal que a costa nos dá. Não pretendas, pois, lançar a primeira pedra, quando vives num país que tudo começa a construir pelo telhado. Não queiras tocar violino num salão de surdos. Não esperes dos mudos, desses que voluntária e meticulosamente, calculistamente, calam a existência de todo um mundo para lá das suas flácidas barrigas, não queiras desses a palavra conveniente. A ninguém convém o mofo, a ninguém se ajusta o hálito bafiento de certas concordâncias, pelo menos a ninguém que estime suficientemente o sabor tardio da liberdade. Porque um dia, é inevitável como estar escrito que mais tarde ou mais cedo será demasiado tarde, um dia o esquecimento definitivo cairá sobre os nomes como uma pedra tumular, e desses nomes nenhumas plantas maravilhosas florescerão. Apenas vermes saberão o odor nauseabundo desses lugares.

1 Comments:

At 3:14 da manhã, Blogger Texto-Al said...

"Há nesses bolsos rotos um turismo melancólico"


muito bom, Fialho;)

Texto.al

 

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