6.6.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #55

NEM NEM



Nem confirmo nem desminto
ter pensado contratar aquele braço
de fora da janela da carrinha para
o colocar a gerir uma pequena
ou média empresa qu’eu criaria
com um dos subsídios da europeia
que servem para encher os bolsos
de muitos às costas de outros.
Se a avaliação daquele braço era
de muitos euros, o resto previa
um jackpot do euromilhões.
E como quem não arrisca...

Nem confirmo nem desminto
ter prometido um subsidio anual
para entrançar seu braço no meu,
muito menos que o tenha provocado
dizendo ser o seu estilo de mafioso
russo com rosto de Jack Dupree,
muito decalcado do americano.

Se soubesse que era um cafetão
de redes ilegais de emigração
de beijos e tráfego de carnes cruas,
teria desenhado uma fuga com
uma mordaça na chatice muito antes
de misturar-mos as salivas. Acusou-me
de ultraje, por Ter desenhado uns
óculos ridículos no Terrível Ivan
na estampa colada na parede, e
gozado por ele ter mandado cegar
o arquitecto da Basílica de São Basílio.

Nem confirmo nem desminto
ter atirado o cinzeiro contra o espelho
e ter ateado fogo aos cortinados do
quarto, de raiva, ao pressentir irem
ficar lesões de paixão a arder
por tempo indeterminado.

Nem confirmo nem desminto
estar-me borrifando para que ficasse
sentado pelos dias com os cacos do
espelho a seus pés, até ao funeral
da ilusão do personagem que inventou
durante uma vida para enganar
arados vagabundos como eu.

Recordar a evaporação da estrela
afixada na parede foi um terror.

Um dia, hei-de pagar-te os estragos
morrendo, para que renasças
e recries de novo o personagem
a crescer, para o bem ou para o mal.


Jorge Aguiar Oliveira

1 Comments:

At 8:56 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Acabei de ler o poema e não contava fazê-lo.Mas ele puxou-me.
"Atirar o cinzeiro ao espelho e incendiar os cortinados da cama" mesmo para ficar com "lesões por tempo indeterminadoi" , é preciso. Sobretudo com uma gentinha sinistra que por aí anda a impingir urbi et orbi "pastelões" de auto-comiseração com "luz" e "neblina", mais que glosados e recessos,e que afastam cada vez mais os novos leitores da Poesia.

 

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