5.6.08

S.O.S.

A minha vida anda como o tempo: às vezes sol, outras vezes chuva. Às vezes ambos ao mesmo tempo. O chão que piso é como um céu carregado de nuvens cinzentas numa tarde quente, ou uma tarde tépida numa praia deserta. Tépidas praias desérticas. Onde já terei ouvido isto? É um bom retrato do país, uma tépida praia desértica. Ando inquieto, cheio de contradições, com os interruptores avariados. No passado dia 13 de Maio, aquando da festa das direitas, as quais se juntam todos os anos em Fátima para uma rave na companhia dos pobres de espírito, os bem-aventurados no reino dos céus, pensei fazer uma caminhada. Detive-me assim que pensei na possibilidade de ser confundido com um peregrino. Então resolvi aguardar pela festa das esquerdas, muito mais modesta mas em local apropriado: o belo Teatro da Trindade. Assistiu-se ali a um belo espectáculo, embora o cenário parecesse saído da cabeça de um pobre de espírito, um dos tais bem-aventurados, os actores andavam bem sobre o palco, mas sempre que desciam à plateia apertavam o nariz uns dos outros, ajeitavam a gravata no pescoço, afastavam os maus cheiros da ralé com desodorizantes do Yves Saint Laurent (em clara homenagem ao papa entretanto falecido), e o guarda-roupa não vinha por certo do Mercado de Santana. Gente preocupada com os pobres, gente sentida, gente solidária com os que votaram “socialista” (sei de fonte segura que se trata de uma nova marca de salsichas das carnes Nobre), gente tão desassossegada como eu, que ainda não fui à Feira do Livro, ainda não comprei a nova LER, nunca frequentei o Rock in Rio e nem gosto por aí além da Amy Winehouse, do Rod Stewart ou dos Bon Jovi. Entretanto, ali mesmo ao lado, os objectos da aflição enfardavam bifes da vazia, descascavam camarão, bebiam girafas e arrotavam gambas al ajillo com os olhos colados às reportagens do Nuno Luz sobre a Selecção Nacional de Futebol Profissional. Já sabemos o que comem, que o Cristiano Ronaldo prefere peixe a carne, talvez por ter nascido numa ilha rodeada por mar, passe a redundância, que o Quaresma nunca fez vida de cigano, que o Paulo Ferreira tem uma fã no Japão, que o Petit dá cabo dos espelhos todos lá de casa, que o Nani nasceu num bairro de lata, que os jogadores gostam todos muito de arroz doce, que as fãs da selecção na Suiça alternam entre o boazona à là carte e o vê se te amanhas. Não sei, pois, para onde me virar. Se para a festa das direitas, se para a festa das esquerdas, se para o lado do meu bom povo, sempre em frente, para aí é que é o caminho, se para a Galp, se para a BP, se para Obama, se para a Repsol, se para a Coca Cola Light, se para Hillary ou para a Pepsi Zero. Não sei, estou confuso. Daqui a pouco começo a pensar que quem venceu as primárias foi a Manuela Ferreira Leite. Alguém que me ajude. Nem que seja o Paulo Teixeira Pinto.

5 Comments:

At 3:39 da tarde, Blogger L. said...

hehe, o cenário é complicado.

"foi bonita a festa pá"

e agora?

 
At 6:35 da tarde, Blogger hmbf said...

Agora apaga-se a luz.

 
At 12:31 da manhã, Blogger np said...

qual luz?

 
At 9:06 da manhã, Blogger hmbf said...

A luz que iluminava a sala.

 
At 11:10 da manhã, Blogger L. said...

e que já de si era apenas a chama fraquinha do camping gaz!

 

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