2.6.08

PRÉMIO MORUMBI 2009

Que livro, meu pai, escreverei, se todos os poemas
levaste menos um, a minha vida tosca, fosca e fustigada
pela prece em que não ousei reter-te, ó ruas de Salónica?
Falava-te de anjos, e agora que já falei de anjos, saboreia as
minhas tâmaras, que são frutos exóticos que no poema resistem
mais à dor e ao esquecimento que os próprios prémios de
poesia no sangue em que a luz cai, crepuscular, como a galinha
que fodia no quintal – lembras-te meu paizinho – e os bicos rombudos
das criadas, como igrejinhas – ah tempo, eflúvio e não sei quê – como
igrejinhas no cu, no cume dos montes que de noite são mais pardos
do que os gatos, de gatas, a fazer cuá cuá, buliçosos como o átrio
do Palácio Borghessi, enxárcia tamanha! Falta-me, para ser erudito,
falar de uma entidade mitológica, com sinos suplicantes na peida da
Redotti, escarafunchar um pouco mais a sala, aristocrática, mas com
jarrões de plástico, onde o leitor se sinta cómodo, vendo apenas tudo
o que já vira, incluindo Danone, a entidade que nos finda o sonho e
o jantar, e serve, como desejais, para que vos engorde apenas o poema.



Augusto Santorini

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