11.6.08

O PLÁGIO

Não sei o que leva alguém a plagiar um texto. Avanço com algumas hipóteses, por me parecerem as mais lógicas: gostar desse texto, sofrer de pedantismo, ser preguiçoso. A Internet é um território bastante propício para a prática do plágio. Uma quantidade enorme de textos à mão de semear, sem nenhuma protecção específica, ao dispor de um número incontável de gente espalhada por todo o mundo. Não se admirem se começarem a ter mais sensações de déjà vu no decorrer das vossas leituras. Não me refiro à sensação de que já tudo foi escrito, refiro-me à certeza de já terem lido o que então estão a ler. A essa sensação podemos juntar a forte possibilidade de um qualquer livro ser publicado algures com palavras vossas e sem o vosso consentimento, ou mesmo de um autor se tornar famoso à base de textos colhidos aqui e acolá no espaço agreste da Internet. A M. M. Botelho queixa-se de plágio. Também eu já acusei algumas usurpações (aqui, aqui e aqui). Entretanto, experimentei googlar ao acaso algumas frases de textos meus. Comecei por um dos primeiros textos publicados no Insónia. Et voilámais um plágio. O resultado da experiência foi tão assustador que resolvi parar. Se queremos ter um weblog aberto, uma das primeiras condições psicológicas a que nos devemos obrigar é a um completo desprendimento relativamente às palavras que escrevemos. Uma vez colocadas on-line as nossas palavras passam a estar à mercê de todos, deixam de ser nossas, deixam de estar sobre o nosso domínio, praticamente perdem o autor. Não há deveres na Internet. Não esperem, pois, que existam direitos.

6 Comments:

At 1:44 da tarde, Anonymous JPG said...

«Estamos no ano 2000 depois de Cristo. Toda a Blogália foi ocupada pelos plagiadores... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis bloggers ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários plagiadores nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum...»
"Astérix" (evidentemente, texto adaptado)

"Não há deveres na Internet. Não esperem, pois, que existam direitos."

Não! Mil vezes não! Existem deveres, sim. E existem, portanto, direitos.
O dever de não plagiar. O direito de denunciar o plágio. O dever de mencionar claramente as fontes. O direito aos créditos. O dever de combater o parasitismo. O direito à propriedade intelectual.
Desista quem quiser. Isso não é mais do que uma cópia (fácil e taxativa) do mais puro comodismo.

 
At 2:35 da tarde, Blogger hmbf said...

JPG, os deveres que existem na Internet são ditados pela consciência moral de cada um. Este é um mundo aberto, as leis são mínimas e permitem a cada um fazer o que bem entende. Quando digo que não existem deveres na Internet refiro-me precisamente a essa realidade. Que a minha consciência moral me obrigue a denunciar, como fiz neste post e tenho feito noutros, situações similares ou de outro tipo, não impõe que a consciência moral de outrem, ou a ausência da mesma, se reflicta da mesma forma.

Também não creio que exista um “dever de não plagiar”, algo que me remete sempre para um texto de Brecht onde este dizia que “utilizar um pouco de um ou outro autor é prova de modéstia”. A questão é complexa. O que se passa na Internet é, talvez, mais descarado, pois o plágio transforma-se, as mais das vezes, em mera cópia – isso sim, verdadeiramente comodista.

Do meu ponto de vista, você coloca as coisas num plano demasiadamente simplista ao falar em puro comodismo. Deixe-me dizer-lhe que não é nada cómodo ser plagiado, muito menos apercebermo-nos que nada que não seja o que fiz neste post pode confrontar esse fenómeno. O resto é-me completamente indiferente, não por comodismo, mas por convicção: não acredito muito nessa história da “propriedade intelectual” (talvez venha a escrever algo sobre isso). Prefiro pensar que andamos todos a contribuir para uma nova Bíblia, uma fonte universal onde todos vão beber para depois cada qual mijar à sua maneira.

 
At 4:50 da tarde, Blogger JPG said...

É favor não confundir o verbo "plagiar" com o muito mais prosaico e corriqueiro "copiar". A diferença está nas motivações.
O contrário se passa, de resto, com o significado do verbo que utiliza: mijar, é mesmo como diz - cada qual mija à sua maneira. Se bem que a intenção (aliviar a pressão na bexiga) seja comum a qualquer animal. Exacto. Não confundir, por conseguinte, as coisas: ninguém pode mijar por mim. Nem por si, presumo. É o que se costuma dizer, pelo menos: "vou ali fazer uma coisa que ninguém pode fazer por mim".
Esta "analogia" é muito traiçoeira, porém. Às tantas estamos aqui a falar de Desmond Morris e das diferenças ou semelhanças entre necessidades fisiológicas e angústias existenciais... ou coisa que o valha.
Para não cansar e só para terminar. A minha definição de "propriedade intelectual": fui eu que fiz. É uma coisa infantil, reconheço; exactamente o mesmo que toda a gente diz aos 3 ou 4 anos. Mas, 30 ou 40 anos depois, vale o mesmo.

 
At 6:06 da tarde, Blogger hmbf said...

Não confundi plagiar com copiar. Disse, e repito, que “o que se passa na Internet é, talvez, mais descarado, pois o plágio transforma-se, as mais das vezes, em mera cópia”. Ou seja, alguém passa por aqui, copia um texto e publica-o como sendo seu. O plágio requer uma certa arte e, voltando ao texto de Brecht, pode consistir numa nova expressão para uma mesma coisa. Neste sentido, será que Camões não plagiou Petrarca? A conversa acerca das necessidades fisiológicas, motivada pela minha conclusão anterior, esconde o essencial da questão: olho para os weblogs como uma oficina onde se partilham textos, imagens e sons. Não gostaria que esse lado oficinal que tanto me agrada fosse rejeitado em função de interesses de promoção e publicidade individuais ou colectivos, embora compreenda que seja essa a tendência. Desta minha posição advém um conjunto de consequências que poderão inclusive prejudicar-me, nomeadamente enquanto autor/produtor de textos plagiados ou copiados. Por que não acredito muito nessa história da propriedade intelectual? Por, justamente, não ter esse sentido de propriedade relativamente aos meus textos; eu fui um meio para que o texto existisse, não fui só eu que o fiz embora também tenha sido eu a fazê-lo. Não se costuma dizer que quem faz um texto é o leitor? Resumindo: quando assino um texto e o publico devo estar consciente de que levando a minha assinatura esse texto dever-me-á ser atribuído mas não posso garantir que com isso ele seja apenas meu ou que tenha sido apenas eu a produzi-lo.

 
At 9:38 da tarde, Blogger Luis Eme said...

pode acontecer o mesmo com os livros... embora por aqui dê menos trabalho, é só copiar...

ainda nunca percebi o gozo de alguém, que se afirma, com textos escritos pelos outros,

mas como somos todos diferentes e todos iguais...

claro que é mais prático e dá menos trabalho...

 
At 5:22 da tarde, Blogger blimunda_7luas said...

e pra que combrar ágio, se nesse mundo virulento, tudo é plágio 9ou contágio..)?

 

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