9.9.08

AS CANÇÕES PREFERIDAS DO DEFUNTO

Quando lhe morre o pai ou a mãe, a tendência do poeta contemporâneo é escrever um livro de poemas sobre o assunto. São livros muito sofridos, manchados de lágrimas, húmidos, salgados, livros inchados de memórias, a dobrarem-se nas pontas de tanta ser a dor da perda. Na cabeça de muita gente são bons livros, estes livros, pelo que muitos poetas contemporâneos anseiam pela morte do pai ou da mãe para poderem escrever um livro desses. Até lá, vão aos arquivos e fazem uma selecção das canções preferidas, dos discos predilectos, das bandas do coração. Escrevem poemas ao acaso aos quais dão os títulos das canções preferidas. Outros, mais cultos, optam por livros de poemas cujos títulos remetem o leitor para composições clássicas. Estes diálogos não são novos. Bach é, para todos os efeitos, o compositor mais mencionado, embora o poeta contemporâneo prefira parafrasear Tom Waits, Nick Drake ou outros escritores de canções melancólicas. Também há quem escreva sobre cidades, quem opte por fazer da poesia um retrato dos lugares ou de algo vivido nos lugares. As mais das vezes, os leitores ficam sem perceber a relação entre os poemas e as referências geográficas. Mas esse é o grande desafio que se coloca ao leitor, descobrir ou inventar ele mesmo uma relação que nunca esteve na origem do poema. Temos, por fim, a utilização de personagens com nomes estrangeiros ou mesmo inventados. Julgo ser um aspecto bastante singular. Não sei de muitos autores estrangeiros que atribuam nomes portugueses às personagens das suas histórias, mas agrada-me esta dimensão cosmopolita do autor português. O ideal, em todo o caso, seria escrever um livro sobre a morte de um pai ou de uma mãe com nome estrangeiro em que todos os poemas tivessem títulos de canções. Podiam ser, por exemplo, as canções preferidas do defunto. Olha, belo título: “As Canções Preferidas do Defunto”.

3 Comments:

At 9:45 da tarde, Blogger Luiz Modesto said...

"As canções preferidas do defunto", bom titulo mesmo.
Abraço

 
At 4:13 da manhã, Blogger Ente lectual said...

não sei se era tua intenção identificar o "problema último" da nossa "arte poética" (sou do mais inteligente que há, notem, uso aspas). Em caso afirmativo erraste,creio, por tomar o sintoma como doença. Esses artifícios curiosos (leia-se: recentes) são, quase sempre, apenas uma hipótese de fuga aos artifícios odiosos (leia-se:antigos), como a fúria imagética ou metafórica, a abstracção que é somente ponto de partida, o abuso do pronome pessoal para dar colorido e "concreto" (ver acima), os lugares-comuns escangalhados sobre a Lua, o vento e a primavera; para tentar, em vão, escapar da tão lírica quanto alarve ideia de que se há ideias não há poesia. Enquanto a poesia não puder voltar a ter um propósito narrativo ou "expositivo" (ver acima), ficamos entregues às manhas torpes do envio, da imagem sem objecto, do sentimentalismo (essa forma sofisticada de chantagem), e etecetera.

 
At 11:22 da manhã, Blogger etanol said...

E " As canções feridas do Dafundo"?
:)
Maria João

 

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