28.10.08

O MAIS IMPORTANTE NÃO É O MELHOR #2

O inquérito a “escritores, críticos e jornalistas da área da cultura” prossegue a bom ritmo. Depois de Frederico Lourenço e Luís Mourão responderam Nuno Júdice e Rui Lage. Nuno Júdice gosta de livros autografados. O poeta, ficcionista ensaísta e professor universitário português, cita Os Passos em Volta, de Herberto Helder, como melhor livro de ficção. Parece-me uma óptima escolha. Já no que respeita à poesia, fiquei algo sem saber como. Sou dos que desconhecem Memória dum Pintor Desconhecido, de Mário Dionísio, embora me agrade saber que o meu desconhecimento contribui para que este livro seja melhor que outros. Já os mais importantes são Aparição, de Vergílio Ferreira, e Homem de Palavra(s), de Ruy Belo. Li os dois. O mais engraçado nestas escolhas é Vergílio Ferreira voltar a ser mencionado. Para o bem ou para o mal, o autor de Para Sempre parece estar em todas. Vem Rui Lage estragar a festa, com respostas estilo lençol e um argumentário de fazer inveja a poetas, ficcionistas, ensaístas e professores universitários portugueses com ou sem franja. As respostas deste cowboy da novíssima poesia lusitana reiteram Livro do Desassossego como o Livro que muitos desassossega, talvez por ser tão difícil classificá-lo de ficção. No entanto, sublinhe-se a opinião do poeta: Nem romance, nem conto, nem novela, nem ensaio, nem diário mas uma espécie de milagre que não mais voltou – nem voltará – a repetir-se, o Livro do Desassossego é a obra “melhor” e “mais importante” do século XX português. E europeu. Caralho, eu próprio, que sou um génio, não diria melhor. Quanto a poesia a escolha foi para Limite de Idade, de Vitorino Nemésio, poeta justamente lembrado num meio que tanto o tem esquecido. É daqueles casos que nos mete a pensar, coisa rara e difícil. Talvez lhe falte a atenção dos canonizadores para que possa deixar de ser apenas o melhor e passar a ser, pelo menos, um dos mais importantes. Fica sempre bem, dá saúde, e faz crescer. Na vida e na morte, como na memória e no esquecimento. Nemésio é, sem dúvida, um grande poeta. E Limite da Idade, a da Semântica Electrónica, do Cão atómico e d’O Cavalo Sidério, um livro de fazer inveja a muitos outros. Nos melhores é que a porca troce o rabo. Lage deixa de lado a ficção, anteriormente resolvida com o desassossego pessoano, e concentra-se nos poemas. Que as “Odes” de Álvaro de Campos e seus respectivos netos isto, que Alberto Caeiro e seus muitos filhos aquilo, que os pais adoptivos e os pais biológicos não sei quê, que Schopenhauer – olé - preferia o conceito de entidade ao de verdade e isso explica uma putativa desistência do mundo essencial já que à verdade não acederemos senão confiando desenganadamente nas ilusórias aparências. Ufa! Ora, eu cá estou convencido, porque disto nada percebo a disto tudo falo, que há uma essência na maçã contaminada do Edén que nem a sua bela aparência logra fazer esquecer. Por isso a não como se me for possível evitá-la. Mas depois Gadamer entra na peleja, porque já não bastava o Arthur, e as Teorias da História aí estão para nos atazanarem o juízo. Penso nisto: É o grande senão dos cânones: a sua existência dentro da História, que se move e nos arrasta com ela, é uma contradição. De tempos a tempos, o cânone sai desautorizado. Mas enquanto isso não acontece, morde, provoca comichões. Desde cedo afectado pelo pé-de-atleta, sugiro uma pomadinha Canesten contra as comichões provocadas pelo fungo canónico. A ele se devem vítimas, diz Lage, como Eugénio (nos anos 80), Herberto (nos anos 90) e só o Deus Cânone saberá quantos mais. Decepcionante, esta resposta do poeta Lage. Mais valia não ter respondido a responder não respondendo. Sobre o assunto postarei uma laje não sem antes acrescentar Condorcet, dito António Nicolau: «os homens conservam ainda os erros da sua infância os do seu país e do seu século, muito tempo depois de terem reconhecido todas as verdades necessárias para os destruir». Alguém duvida que, perante isto, o mais importante poeta do século XX português foi mesmo Luís Vaz de Camões mascarado de Bocage a galar Florbela Espanca numa discoteca de Matosinhos?
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7 Comments:

At 10:59 da tarde, Blogger Waft said...

Dei umas boas gargalhadas a ler isto.

Obrigado. Faziam-me falta.

 
At 12:35 da tarde, Blogger etanol said...

não é nada, o melhor é o Bocage mascarado de Forbela Espanca a galar o Luís de Camões numa discoteca de Matosinhos :)))))
Maria João

 
At 5:06 da tarde, Blogger rui said...

Eu acho q a resposta de Nuno Júdice até é capaz de ser a mais coerente até agora, pois desloca o âmbito das perguntas para o seu universo pessoal, o único q poderá fazer sentido quando se fala de "melhor" ou "mais importante"... e mesmo assim, são expressões tão absolutas, q mesmo num universo pessoal, não sei.
O problema é q estes inquéritos passam sempre a ideia de q as pessoas a quem perguntam, não só leram todos os livros de ficção portuguesa do século XX e todos os livros de poesia portuguesa do século XX, como têm capacidade para escolher dentre todos o melhor e o mais importante. Mais: q têm a capacidade de perceber o q é isso de o melhor e o mais importante.
E nós, leitores distraídos e acríticos (q todos temos tendência a ser, mesmo os mais atentos e críticos), deixamo-nos levar.

Ah... eu sabia q o livro de Mário Dionísio existia. Li-o (incluído no volume "Poesia Incompleta"),pela primeira vez, há mais de 10 anos, depois de o ter comprado por 330 escudos.

 
At 7:06 da tarde, Blogger hmbf said...

Waft, de nada. Apareça sempre com essa sua boa disposição.

Etanol, tu é que és a artista. :)

Rui, subscrevo o teu comentário. Excepto a parte do Dionísio.

 
At 10:08 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Pois eu concordo com o Rui Lage, não tendo, igualmente, desgostado do Frederico. Também li e reli em miúda "A Ilustre Casa de Ramires", onde aprendi o gozo da ironia sobre um tema português, não "inspirado" em Zolas, Balzacs ou Flauberts....

Quanto ao R. Lage, não se furtando a hipóteses,questiona os circunstancialismos e limites do "cânone", as dificuldades de tipificação literária (Desassossego),fundamenta filosoficamente, etc.

O "guarda-chuva" do pessoal e afectivo é uma boa saída no caso de NJ.Saída possível, de luva branca.

Sobre Literatura não há receitas nem escalas de valor objectivas. Apenas se pode teorizar, E o Rui sabe-o. Não quis o "guarda-chuva".Só podemos agradecer ter, e muito bem,arriscado molhar-se.


I. L.

 
At 1:21 da tarde, Blogger Jorge Melícias said...

Esquivando-me aos parêntesis, até porque nunca andei na escola, vejo-me compelido a escolher as respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage, “semi-heterónimo” de uns quantos. Assim, diria que as respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage é a ficção do inexistente ou, como o próprio enunciador diz, “a autobiografia de quem nunca existiu”, uma “história sem vida” escrita por alguém que gosta de sentir-se “coevo de Tutankamon”. Nem romance, nem conto, nem novela, nem ensaio, nem diário mas uma espécie de milagre que não mais voltou – nem voltará – a repetir-se, as respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage é a obra “melhor” e “mais importante” do século XX português. E europeu. Portugal não se orgulha o suficiente da única obra engendrada neste insignificante rectângulo que se pode medir, sem medo, com os Essais de Montaigne, os Pensées de Pascal, as Confessions de Rousseau, as Mémoires d’outre-tombe de Chateaubriand, e por aí fora, ficando somente pela Gália, ultrapassando-os, como se não bastasse, a todos. Não vale sequer dizer que é a arte da incontrição esfinctérica levada a um clímax de aluvião. Basta atentar nos Fragmentos de Novalis para se perceber a diferença, abissal. Ou até no tão badalado e fashion O homem sem Qualidades, de Musil. Em vão se procura perceber como foi possível, de onde veio, e para onde não vão as resposta ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage. Mas uma conclusão se pode tirar: a maluqueira é universal. Não universal de uma forma meramente retórica, como é costume dizer-se da obra Y ou do escritor X, quando, por exemplo, é agraciado com o prémio amigos de Setúbal e Azeitão. Universal em todo o alcance da palavra. Universal porque, tratando-se da maluqueira de alguém que viveu quase anónimo, não interessa se qualquer outra coisa ou valet de chambre, pode ser a maluqueira de qualquer outro anónimo, em qualquer outro tempo, lugar, língua, cidade (vade retro) Uma prova? A quantidade de alienados que, depois de lerem as resposta ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage, de imediato revêem a dosagem, ao mesmo tempo que o sentem e o adoptam como a ficção da sua vida – e das suas vidas. Como foi isto possível, isto é, como pôde um indivíduo, sem deixar de ser indivíduo, ter tido consciência do seu anonimato e insignificância a ponto não da “alegre”, mas da triste “inconsciência disso”? As respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal de Rui Lage é a verdade a ser-nos revelada; não a verdade sobre um qualquer sistema, valor, ideia, conceito, realidade, ou o quer que seja, mas a verdade do vazio, e o vazio da verdade: a consciência de que somos é aquilo que nos incita à maluqueira. Nas respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal, nós, leitores de Lage, sendo nós, somos ele – vade retro, vade retro. E esta “ficção” que podemos ler graças ao labor do pessoal d’ OLAM anedotizam a própria anedota da literatura, ou dá gazes. Para Mallarmé a poesia era “a linguagem a sonhar”. Talvez para o autor das respostas ao questionário d’ Os Livros Ardem Mal a ficção fosse a linguagem a dormir. Quanto a sono estamos conversados. A mim convenceu-me.

 
At 1:16 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Quem é Jorge Melícias?
O nick, apesar de azul, vai dar a um perfil vazio.

 

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