16.10.08

DIAMANTES DE SABONETE

Uma vez fui ao lançamento de um livro de poesia do pai de um meu antigo colega de curso. Fui apresentado a várias pessoas, entre as quais um poeta importantíssimo com vasta obra publicada. Os epítetos são da responsabilidade desse meu antigo colega de curso, o qual fez o obséquio de me apresentar como sendo um profundo conhecedor da poesia portuguesa contemporânea. Isto ocorreu há pelo menos 10 anos. Sendo eu um profundo conhecedor da poesia portuguesa contemporânea, certamente já teria lido a reconhecidíssima obra do poeta a quem estava naquele preciso momento a ser apresentado. Podia ter dito que sim. O mais certo era a conversa ficar por ali, íamos todos satisfeitos para casa e não se pensava mais no assunto. O poeta reconhecidíssimo enchia o peito com um putativo leitor, o putativo leitor ia para casa inchado de imerecidos reconhecimentos. Coisas destas acontecem todos os dias. São coisas que acontecem. O busílis é que não só não aprecio aldrabices como detesto ambientes peneirentos. Talvez por isso me tenha saltado da boca um redondo e espontâneo não. De facto, nunca ouvira falar do importantíssimo poeta e nunca lhe tinha lido o que quer que fosse. Fez-se ali um silêncio algo incomodativo, tendo o meu antigo colega de curso rematado o diálogo classificando de imperdoável o meu desconhecimento. Nunca julguei imperdoável o desconhecimento. Para mim, imperdoável é a importanticidade que se atribui a certas “coisas”, imperdoável é abdicarmos de pensar por cabeça própria, imperdoável é o seguidismo, imperdoável é prescindirmos do mínimo espírito crítico cedendo à facilidade das tendências, imperdoável é julgarmos possível uma estética sem ética e uma ética que não seja, na sua essência, uma estética. Porque, já alguém o terá concluído, não é possível ao bem não ser belo nem é possível ao belo não ser bom. Podemos sempre pensar num bem que seja feio e num belo que seja ruim como as cobras, podemos sempre supor, num campo teórico, todas as possibilidades. Mas importa que sejamos sérios. Bem sei que ser sério tornou-se pouco atractivo. O cómico é que rende, a seriedade cansa, está ultrapassada, é obsoleta, a seriedade não cativa, o humor sim, o humor é atraente, é sensual, a seriedade enfada. No país em que vivemos o resultado da situação é bem visível. Faz-se notar em todos os domínios da vida. É muito simples perceber o problema. O acontecimento literário do ano não existe senão num discurso típico de uma sociedade de espectáculo rendida ao mercantilismo. O acontecimento literário do ano é uma coisa falsa, não é sério, não existe senão como pretexto para vender. É como as listas dos melhores no final de cada ano, é como as toneladas de livros guardados para a época de Natal, é como os destaques, pagos a peso de ouro, nos expositores das livrarias, nas capas das revistas especializadas, é como os novíssimos, é como os desgraçadinhos, etc., etc., etc., é como a publicidade, mais ou menos evidente, porque hoje em dia já tudo isto aparece evidente a apenas quem esteja seriamente interessado nas evidências. O Sérgio Godinho cantava assim: Na vida real as aparências / estão do outro lado do espelho / na vida real não me assemelho / à simulação das aparências. E é assim que eu gosto de cantar quando agora entro na livraria onde trabalho, foi assim que eu gostei de cantar nas salas de aula onde leccionei – algo que, como sabeis, é bem diferente de trabalhar -, e assim cantei enquanto fui operador de telemarketing, como também assim vou cantando quando publico artigos na imprensa escrita, quando escrevo nos meus weblogs, quando mergulho nos livros, quando caio na real. Talvez alguns autores passem ao lado disto tudo. Mas não se faça ingénuo quem não é nem se julgue virgem quem outra coisa não faz senão abrir as pernas, que nem puta, às exigências, aos caprichos, às fantasias do mercado. Isto não tem nada que ver com a importância de um livro. Essa sempre foi e sempre será determinada por factores não imediatistas. Isto só tem que ver com a importância que atribuímos à forma como este ou aquele livro é anunciado, promovido, divulgado, vendido, comprado. Se vocês não conseguem imaginar um diamante a ser vendido como se fosse um sabonete, eu consigo. Eu já vi diamantes a serem vendidos como sabonetes.

7 Comments:

At 11:11 da tarde, Blogger Luís said...

pois, mas o mundo é deles...

e no natal, é certinho, o destino dos livros, prateleira.

não tenho dúvidas que o Saramago e o Lobo Antunes são mais reis da prateleira que da leitura.

(luis eme)

 
At 1:49 da tarde, Blogger L. said...

aqui estou contigo. muita peneirice, muito enjôo.

diamantes como sabonteses... fizeste-me lembrar aquela cena do fight club: o tyler durden faz sabonetes para vender caríssimos à malta rica com a gordura que resulta das suas liposucções...

 
At 3:38 da tarde, Blogger j said...

Isto dava um belíssimo poema! Sem ironia:

«Imaginar um diamante a/ ser vendido como se/ fosse um sabonete. Eu/ já vi diamantes a/ serem vendidos/ como sabonetes.»

 
At 5:12 da tarde, Blogger etanol said...

E sabonetes a serem vendidos como diamantes?
Maria João

 
At 5:12 da tarde, Blogger j said...

Isto dava um belíssimo poema! Sem ironia:

«Imaginar um diamante a/ ser vendido como se/ fosse um sabonete. Eu/ já vi diamantes a/ serem vendidos/ como sabonetes.»

[http://comecaamanha.blogspot.com]

 
At 5:58 da tarde, Blogger Vitor_Vicente said...

Tipo "Diamonds and Pearls", do Prince, à venda na Feira Nova, por tuta e meia.

 
At 6:52 da tarde, Blogger hmbf said...

L., belas lembranças.

J., não gosto desse poema.

Etanol, isso é o que há mais por aí.

J., gosto muito desse poema.

Vítor, estou em dívida para contigo. Ainda não me esqueci. Assim que possa...

 

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